Memórias negras: conheça grandes histórias por Salvador

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Praça Castro Alves, Centro Histórico, Salvador.

Conheça monumentos de Salvador que contam a história de resistência do povo negro

O Visit Salvador da Bahia listou monumentos, estátuas, hermas e bens tombados que vão fazer você entender melhor sua própria história

Escultura Odoyá. Novo Normal. Salvador Bahia. Foto Tércio Campelo.

Quem anda pelas ruas de Salvador tem muitos motivos para se encantar. Seja pelo comportamento do povo, pelo pôr do sol privilegiado, pelo cheiro de acarajé em várias esquinas ou pelo roteiro sincrético-religioso. Mas você já parou para reparar as estátuas e monumentos que compõem o cenário em diversos bairros da cidade? Já se perguntou qual o significado delas? Pois é. Muitas ajudam a eternizar a história e as lutas da população negra da Bahia, já que, após séculos de colonização e escravidão, esses monumentos ajudam na preservação e valorização da nossa cultura, bem como no resgate da história de luta e resistência dos povos africanos e afrobrasileiros, que promoveram diversas transformações sociais.

Visitar Salvador e encontrar esses marcos é se conectar com a memória, valorizar vozes de uma luta universal de afirmação e é uma inspiração para a nossa reexistência. Pensando nisso, o Visit Salvador da Bahia resolveu te dar uma mãozinha para que enriqueça o seu passeio com conhecimento e histórias surpreendentes.

“O registro histórico em forma de monumentos responde por algumas formas de exercício da memória de um povo, de uma cultura, de uma civilização. O memorialismo é uma prática de diversas sociedades ao longo da história. No caso dos monumentos que evocam a ancestralidade negra e preta em Salvador, é importante ver que são inscrições públicas que remetem a fatos em que pretos e negros estiveram presentes em papéis de protagonismo”, resume Carlos Barros, historiador, cientista social e cantor de música popular.

Conjuração Baiana de 1798

Se for ao centro da cidade, você vai dar de cara com quatro bustos de personalidades históricas, localizados em plena Praça da Piedade: dos alfaiates João de Deus Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira; e dos soldados Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga e Lucas Dantas de Amorim Torres.

Esculpidos em bronze, os bustos fazem uma homenagem aos quatro homens que foram enforcados e esquartejados em praça pública em 8 de novembro de 1799. Condenados por conspiração contra a Coroa de Portugal, foram considerados pelos Desembargadores do Tribunal da Relação da Bahia como protagonistas de um movimento conhecido como Conjuração Baiana de 1798, também chamada de Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios.

O movimento, de caráter emancipacionista, aconteceu no final do século XVIII (1798-1799), na então Capitania da Bahia. Foi difundido como um movimento de caráter popular em que defendiam a independência e mais igualdade racial, além de um governo republicano, democrático, com liberdades plenas, livre comércio e abertura dos portos como principais pontos. Defendiam, também, um salário maior para os soldados. A sentença para todos foi o enforcamento seguido de esquartejamento na Praça da Piedade.

Praça Castro Alves

Praça Castro Alves. Centro Histórico de Salvador Bahia. Foto: Tércio Campelo.

Depois dessa visita, vale a pena continuar descendo pela Avenida Sete de Setembro em direção ao Centro Histórico. Logo depois do edifício Sulacap, você continua em frente até se deparar com a estátua do poeta Castro Alves, em frente ao Espaço de Cinema Glauber Rocha. Também esculpida em bronze, a estátua tem na sua base, sob tampo de granito, os restos mortais do poeta que ficou conhecido como o “Poeta dos Escravos”.

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, no Recôncavo da Bahia e, por volta de 1853, veio com a família para Salvador. Estudou no Colégio de Abílio César Borges, onde foi colega de Rui Barbosa e, durante esse período, já demonstrava grande vocação para a poesia. Sua produção literária foi norteada pelas causas social e moral, da abolição da escravatura e da república – aspiração política dos liberais mais exaltados da época. Em 1868, se mudou para a Faculdade de Direito de São Paulo, a mesma do seu amigo Rui Barbosa. Vítima de tuberculose, voltou à Bahia buscando a recuperação da saúde. Nesse mesmo ano, publicou seu primeiro livro, o “Espumas Flutuantes”, conquistando o reconhecimento ainda em vida e mantendo a luta pelos ideais abolicionistas até a morte, em 1871.

Busto de Mãe Runhó

Continuando o roteiro para conhecer mais sobre a história do povo negro dessa cidade, dê uma chegada ao bairro do Engenho Velho da Federação, onde está localizado o busto de Mãe Runhó, na praça que leva o mesmo nome, próximo ao Terreiro do Bogum. Feita de fibra e concreto, a escultura representa uma homenagem à memória da Iyalorixá Maria Valentina dos Anjos Costa, a Doné Runhó, do Terreiro de Bogum.

Ela passou a ser Iyalorixá aos 21 anos de idade, assumindo a direção do terreiro após a morte da Doné Romana de Possú, em 1925, e permaneceu no cargo por 50 anos. Foi sucedida por Mãe Gamo, Evangelista dos Anjos Costa, de 64 anos, que era a mãe-pequena da casa. O enterro de Mãe Runhó foi no cemitério Quintas dos Lázaros, com o caixão sendo transportado nos ombros dos filhos de santo, que entoaram cânticos durante todo o trajeto, seguindo a tradição do candomblé.

Mãe Gilda de Ogum, símbolo de resistência

Outra Iyalorixá homenageada na nossa cidade é Mãe Gilda de Ogum, símbolo de resistência pela afirmação das religiões de matriz africana, após o terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum ter sido invadido e depredado por representantes de outra religião. O busto, feito de bronze, fica no Parque Metropolitano do Abaeté, próximo à Lagoa do Abaeté, em Itapuã.

Gildásia dos Santos e Santos era ativista do projeto de Combate à Intolerância Religiosa e se tornou uma referência para os terreiros de Itapuã e de toda a Bahia. Em outubro de 1999, a Folha Universal publicou uma matéria intitulada: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. A matéria do periódico nacional trazia uma foto, sem autorização, de Mãe Gilda com suas vestes religiosas no terreiro.

Após a publicação, ela sofreu com acusações e calúnias originadas pela matéria. Teve a casa invadida por fundamentalistas religiosos, foi xingada, o marido agredido e objetos sagrados foram quebrados. Mãe Gilda adoeceu e três meses após a publicação, a Iyalorixá de 65 anos sofreu um infarto fulminante que resultou no seu falecimento no dia 21 de janeiro de 2000. Em sua homenagem, em 2007, foi sancionada a Lei 11.365, que consagra o dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Hoje, o Ilê Axé Abassá de Ogum é regido pela Iyalorixá Jacira Ribeiro dos Santos, Mãe Jacira de Oxum, filha de santo e filha consanguínea de Mãe Gilda.

Uma saudade chamada Itapuã

Segundo o historiador Carlos Barros, as estátuas de Mãe Runhó e Mãe Gilda são marcas da presença feminina nas lutas sociais baianas: “Pautadas no aspecto ancestral e existencial da fé, as imagens dessas mulheres nos lembram que lutar é ato constante e o quanto a teogonia afro-brasileira fundamenta nossa vida na Bahia”.

Luiz Gama: um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil

Em outros pontos da cidade, também há monumentos que ajudam a eternizar a história e as lutas da população negra da Bahia. No Largo do Tanque, por exemplo, há uma herma* em homenagem a Luiz Gama, feita de bronze e granito, no centro da Praça. Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu aqui em Salvador no dia 21 de junho de 1830. Era filho de um fidalgo português e de Luíza Mahin, negra livre que participou de diversas insurreições de negros escravizados, inclusive da Revolta dos Malês, em 1835. Em 1840, foi vendido pelo pai como escravo para pagar dívidas de jogo. Foi levado para o Rio de Janeiro e lá o alferes Antônio Pereira Cardoso o comprou e levou para o município de Lorena-SP.

Em 1860, se destacou como jornalista e colaborador de diversos periódicos progressistas. Poeta, seus poemas satirizavam a aristocracia e os poderosos de seu tempo, defendendo os direitos dos mais pobres. Luiz Gama foi um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil, sempre esteve engajado nos movimentos contra a escravidão e a favor da liberdade dos negros. Faleceu em 24 de agosto de 1882 e foi sepultado no Cemitério da Consolação, em São Paulo.

Zumbi dos Palmares

No Largo do Retiro, há uma escultura de aço que homenageia Zumbi dos Palmares, o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, próximo ao viaduto com mesmo nome. Nascido em Palmares (Alagoas), no ano de 1655, foi capturado e entregue a um missionário português quando tinha seis anos de idade, batizado e alfabetizado. Em 1670, escapou de volta para seu local de origem. Oito anos depois, o governador da Capitania de Pernambuco propôs ao então líder do Quilombo dos Palmares, Ganga Zumba, liberdade para todos os escravos do quilombo caso se submetessem à autoridade da Coroa Portuguesa; a proposta foi aceita, mas Zumbi a rejeitou, desafiando a liderança de Ganga Zumba e prometendo continuar a resistência contra a opressão portuguesa.

Com isso, Zumbi se tornou o novo líder do quilombo de Palmares, tornando-se conhecido pela sua destreza e astúcia na luta. Em 6 de fevereiro de 1694, a capital de Palmares foi destruída e Zumbi ferido, vindo a falecer em 20 de novembro de 1695. Zumbi é, hoje, um símbolo de resistência e, em 1995, a data de sua morte foi adotada como o dia da Consciência Negra.

Zumbi também está representado lá no Centro Histórico, em um monumento de 2,20 metros de altura e 300 quilos. Localizado na Praça da Sé, Centro Histórico de Salvador, a escultura é assinada pela artista plástica Márcia Magno.

Busto de Nelson Mandela

Se for ao bairro da Liberdade – ou se for conhecer a sede do Bloco Afro Ilê Aiyê, no Curuzu – vai encontrar outra homenagem. Desta vez, ao ex-presidente da África do Sul de 1994 a 1999, principal representante do movimento antiapartheid, Nelson Rolihlahla Mandela. O busto em bronze fundido fica no Largo da Liberdade, em frente ao Plano Inclinado.

Histórias dos bairros de Salvador: Curuzu

Ele se formou em direito e, ainda jovem. envolveu-se na oposição ao regime racista da apartheid, que negava aos negros direitos políticos, econômicos e sociais. Foi preso em agosto de 1962, mas, em 12 de junho de 1964, foi sentenciado à prisão perpétua, por planejar ações armadas, em particular sabotagem e conspiração para ajudar outros países a invadirem a África do Sul. Continuou na prisão até 1990, quando a campanha do Congresso Nacional Africano – CNA e a pressão internacional conseguiram que ele fosse libertado, em 11 de fevereiro. Mandela e Frederik de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Comandou a transição do regime de minoria no comando, o apartheid, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa. Faleceu em Johanesburgo, em 05 de dezembro de 2013.

De acordo com o historiador Carlos Barros, Luiz Gama, Mandela e Zumbi são ícones de uma guerra política mais franca e em territórios da secura da dominação masculina. “Foram homens que lutaram no terreno do macho branco colonizador típico. Esses monumentos servem para nos lembrar o quanto estamos nas batalhas até hoje”, aponta.

Escultura Odoyá e o Cetro da Ancestralidade

Se você está achando que acabou, pode respirar fundo e continuar batendo perna por aí, pois ainda há outros monumentos que têm ligação direta com a nossa cultura e ancestralidade, como a escultura Odoyá e o Cetro da Ancestralidade. A escultura, em homenagem a Yemanjá, é feita em aço inox, com altura de 4,50m e largura de 9,0m, encravada na parte posterior da balaustrada da praia do Rio Vermelho, em frente à igreja. Evoca uma barbatana de peixe vazada, que mostra a linha d’água no horizonte. “Comecei a fazer um cavalo marinho em aço inox. Mas vi uma barbatana de peixe e pensei na solução vazada, que mostra a linha da água na balaustrada”, revela o artista visual Ray Viana, autor da peça.

A escultura foi batizada como Odoyá! – saudação a Yemanjá – e significa Mãe das Águas. A Orixá é considerada a “Mãe de todos os Orixás”, pois conta um mito iorubá que eles saíram dos seus seios partidos. Ela é o único orixá que tem uma festa exclusiva em sua homenagem– 2 de fevereiro – sem nenhuma associação com santo católico na capital da Bahia.

No mesmo bairro, mas na Rua da Paciência, fica o Cetro da Ancestralidade (Opo Baba N’Laawa), implantado em fevereiro de 2001, que é um símbolo de ancestralidade afro, concentrando os princípios femininos e masculinos da cosmogonia nagô.

Confeccionada em bronze, sobre uma calota de terra gramada, a escultura é um marco da herança africana, um objeto sagrado que utiliza elementos significativos da herança cultural, responsável pelo legado civilizatório que marca a identidade afro-brasileira. Dois pássaros nas laterais da peça representam o poder de procriação, resultante do movimento e da interação entre os princípios. Como textura do marco, taliscas de palmeiras, búzios, contas e cicatrizes fazem parte da obra, que é de autoria do sacerdote-artista, escultor e escritor Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi.

Pedra de Xangô

Para finalizar o nosso passeio ancestral em Salvador, recomendo que vá até o bairro de Fazenda Grande II, onde fica a Pedra de Xangô, principal símbolo de representação das religiões de matriz africana. Ela está ali há 2 bilhões de anos! A pedra e o espaço, considerado sítio histórico do antigo Quilombo Buraco do Tatu, com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município (8.550/2014), são patrimônios geológicos já reconhecidos nacionalmente e tombados, em 2017, pela Fundação Gregório de Mattos.

Segundo a pesquisadora Maria Alice Silva, a pedra está numa área remanescente de Mata Atlântica e guarda memórias de ocupações quilombolas e indígenas. Maria Alice explica que Quilombo, morada dos índios Tupinambás uma expressão utilizada pelas comunidades de terreiros e moradores da região de Cajazeiras e de Salvador ao se referirem à Pedra de Xangô, também conhecida como Pedra do Buraco do Tatu, Pedra do Quilombo do Urubu ou Pedra da Onça.

“A suposta prática de oferendas para caboclos ou encantados no local, bem como a famosa pajelança, se deve à provável permanência dos indígenas. Apesar de a literatura e os documentos históricos não afirmarem, com exatidão, que o lugar onde está localizada a Pedra de Xangô teria sido quilombo, há indícios de práticas religiosas africanas e indígenas na área”, enfatiza.

Integrante do grupo de EtniCidades da Faculdade de Arquitetura da Ufba, Maria Alice é uma das articuladoras do processo de criação do Parque em Rede Pedra de Xangô e da APA Municipal Vale do Assis. Sobre a Pedra de Xangô, faremos um artigo à parte, e se quiser buscar mais informações sobre a Pedra de Xangô no Instagram (@pedra.de.xango).

“Entender o significado desses monumentos e esculturas é poder aprofundar questões acerca de nossa história, fugindo das obviedades que denotam sempre que o discurso dos que ocupam o poder majoritário é o discurso de verdade. A história precisa ser encarada como essa construção constante de verdades que se sustentam nos embates simbólicos entre agentes ao longo do tempo”, pontua Carlos Barros.

Cristiele França
Jornalista

Sobre a colaboradora: Cristiele França é Ekedji do Ilê Asé Oya Mesi. Jornalista, faz o programa Mojubá do Grupo Metrópole e é assessora de imprensa na Sec. Municipal da Educação. Vale conhecer o seu canal no YouTube neste link.

Notas

Essa matéria contou com entrevistas de:

Carlos Barros – Professor de História e Sociologia. Licenciado em História e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia.

Maria Alice Silva – Pesquisadora, integrante do grupo de EtniCidades da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba)

Herma* – Um pilar quadrado ou retangular de pedra, terracota ou bronze (o estípite) sobre o qual se coloca a representação da parte da cabeça do homenageado.

 


Arte na rua! Escultura Odoyá. Ray Vianna. Salvador Bahia. Imagem cedida pelo artista.

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1 horas - 2 horas
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