Dois de Julho 
Foto: Adeloyá Magnoni - Divulgação FGM
Dois de Julho Foto: Adeloyá Magnoni - Divulgação FGM

A Volta da Cabocla - tradicional cortejo integra os festejos da Independência do Brasil na Bahia

Publicado em 06.07.2026 às 11h 57 - atualizado em 24.07.2026 às 20h 34

História e cultura

O retorno dos carros do Caboclo e da Cabocla ao Memorial 2 de Julho

Entre o sagrado e o profano, a tradicional Volta da Cabocla, que encerra as celebrações da Independência da Bahia, revela a verdadeira alma do povo baiano em um desfile de fé, música e resistência. Nas edições mais recentes, a celebração reafirmou sua força no calendário cultural e turístico de Salvador, reunindo uma multidão que percorre o trajeto entre o Campo Grande e a Lapinha, acompanhando os carros da Cabocla e do Caboclo.

Se o desfile do 2 de Julho em Salvador é o momento do protocolo, das autoridades e do reconhecimento oficial da vitória brasileira sobre as tropas portuguesas, a Volta da Cabocla é o instante em que a festa, despida de formalidades, entrega-se inteiramente aos braços do povo. É o encerramento apoteótico de um ciclo que transforma as ruas do Centro Histórico em grande festa, onde a história não é apenas lembrada, mas vivida com uma intensidade que só a Bahia consegue traduzir.

Tradicionalmente realizada no dia 5 de julho, a Volta da Cabocla marca o retorno das carruagens alegóricas que transportam as esculturas ao Memorial 2 de Julho (o Pavilhão), no bairro da Lapinha. O cortejo refaz, em sentido inverso, do percurso tradicional do desfile do 2 de Julho. Ao longo de todo o ano, os carros permanecem em exposição no memorial, tornando o espaço uma excelente opção de passeio cultural para toda a família. Saiba mais neste link.

O desfile é acompanhado pela Orquestra do Maestro Reginaldo de Xangô, que participa da procissão há mais de 25 anos e hoje é regida pela maestrina Rita Barbosa, filha do músico e carnavalesco Reginaldo de Xangô. Ela assumiu a condução da orquestra em 2013, após a morte do pai, e desde então mantém viva essa tradição. Em 2026, a formação reuniu 80 instrumentistas, divididos em dois grupos que acompanharam todo o percurso.

Entenda melhor essa história…

Para compreender esse evento, é preciso mergulhar nas raízes do século XIX. A tradição de ter uma carruagem alegórica nasceu em 1824, apenas um ano após a expulsão definitiva dos colonizadores. Naquela época, veteranos das batalhas decidiram refazer o caminho da vitória, da Lapinha ao Terreiro de Jesus, utilizando como troféu de guerra as próprias carroças que outrora transportavam os canhões inimigos.

O Caboclo e a Cabocla representam o exército que lutou na guerra formado por soldados regulares e voluntários, brancos pobres, tupinambás, negros libertos e pessoas escravizadas enviadas pelos seus senhores. A imagem do Caboclo matando a serpente (ou o dragão) é o símbolo máximo da vitória da liberdade sobre a tirania. Por todo o caminho, essas duas figuras simbólicas recebem dos passantes flores, frutas e bilhetes com pedidos. A famosa expressão baiana “Vá chorar aos pés do caboclo” surgiu daí.

Os carros do Caboclo e da Cabocla permanecem no Largo do Campo Grande (Praça 2 de Julho) entre os dias 2 e 5 de julho. Esse período de repouso na praça é fundamental para a conexão sentimental da cidade. Para muitas pessoas, principalmente para as religiões de matrizes africanas, o Caboclo não é apenas uma estátua de cerâmica; é uma divindade ancestral, uma entidade do Candomblé de Caboclo que protege e guia a nação.

Marisa Vianna, uma das mais renomadas fotógrafas da Bahia, registra as celebrações do 2 de Julho há mais de 20 anos. Segundo ela, nesse período já presenciou cenas marcantes enquanto o carro da Cabocla permanece no Campo Grande. Segundo ela, é ai que se reconhece a grandeza do símbolo ali representado:

“As pessoas mais necessitadas, os moradores de rua podem ir ali pegar as frutas (…) e, mesmo assim, não vejo ninguém com sacolas, ou avançando no carro, pelo contrário (…) O alimento do caboclo alimenta o povo, isso para mim é muito forte”.

A celebração de 2026

A tradicional Volta da Cabocla reuniu uma multidão na noite do último sábado (4) e marcou o encerramento de mais um ciclo das celebrações pela Independência do Brasil na Bahia. Os carros com as imagens do Caboclo e da Cabocla deixaram a Praça 2 de Julho, no Campo Grande, onde permaneceram em visitação popular desde o cortejo cívico realizado na quinta-feira (2).

Em 2026, a festa, tradicionalmente realizada em 5 de julho, foi antecipada para o dia 4, um sábado, para que o brilho do cortejo não fosse ofuscado pelo fervor da Copa do Mundo. Com apresentações emocionantes, como o show de Mariene de Castro no Campo Grande, a Volta da Cabocla consolidou-se como um espetáculo de entretenimento e profundidade espiritual que atrai olhares de todo o mundo.

Por Fernanda de Carvalho Slama
Jornalista e pesquisadora
Coordenadora de conteúdo do portal

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