Bando Olodum. Foto divulgação .
Bando Olodum. Foto divulgação .

Bando de Teatro Olodum – 35 anos de Arte Negra

Publicado em 19.08.2026 às 18h 11 - atualizado em 28.08.2026 às 09h 54

História e cultura

Da cena de Salvador à formação de novas gerações, companhia transforma palco, memória e luta antirracista

O teatro atravessa ruas, comunidades, escolas, terreiros, blocos afro e territórios de memória. O Bando de Teatro Olodum construiu uma das trajetórias mais importantes das artes cênicas do país. Criado em 17 de outubro de 1990, a partir da parceria entre o Grupo Cultural Olodum e artistas do teatro baiano, o grupo chega aos 35 anos como companhia, escola, arquivo vivo e espaço de disputa simbólica.

A celebração dessa trajetória começou a ser construída em 2025 e, agora, no dia 18 de agosto, após uma noite de comemoração, aprendizado e muita arte negra, teve início o projeto Bando de Teatro Olodum – 35 anos de Arte Negra. A proposta vai além de uma retrospectiva: articula formação artística, circulação, mediação cultural e a criação de um novo espetáculo.

A iniciativa apresenta a longevidade do grupo como ponto de partida para uma pergunta de futuro: como garantir que novas gerações negras possam não apenas entrar em cena, mas também criar, dirigir, produzir, iluminar, pesquisar e decidir os rumos da própria representação?

Uma fundação que deslocou o centro da cena

O Bando nasceu em um momento de reorganização das linguagens negras nas artes brasileiras. Sua criação reuniu o Grupo Cultural Olodum e os artistas Márcio Meirelles, Chica Carelli, Maria Eugênia Millet e Leda Ornelas. Desde o início, a proposta era mais ambiciosa do que formar um elenco predominantemente negro: tratava-se de construir uma linguagem cênica capaz de refletir a cultura, a identidade e as experiências da população negra no Brasil.

Esse deslocamento é fundamental. Durante muito tempo, personagens negros foram empurrados para as margens do imaginário teatral, frequentemente limitados a papéis estereotipados ou submetidos à lógica de uma dramaturgia que considerava branca a experiência universal. O Bando tensiona essa tradição ao colocar o protagonismo negro no centro do processo criativo. Não se trata apenas de alterar quem aparece no palco, mas de transformar os temas, os corpos, os ritmos, os modos de atuação e os critérios de produção de conhecimento em cena.

A própria companhia descreve seu trabalho como uma busca pelo combate ao racismo, ancorada em personagens marcantes e relacionados ao cotidiano da população negra. Sua atuação combina salas de espetáculo e comunidades, aproximando a produção artística de públicos que historicamente tiveram acesso desigual aos equipamentos culturais. Nesse sentido, a territorialidade não é um detalhe logístico: é parte da dramaturgia política do grupo.

Música, dança e oralidade como linguagem

A singularidade do Bando também está na articulação entre teatro, música e dança. Esses elementos não aparecem como ornamento ou intervalo entre cenas; funcionam como estruturas de comunicação e como componentes da identidade estética da companhia. A chegada do diretor de movimento Zebrinha, em 1993, e do diretor musical Jarbas Bittencourt, em 1996, aprofundou essa base corporal e sonora.

A opção por uma cena atravessada pela musicalidade afro-baiana faz com que o espetáculo do Bando dialogue com formas de transmissão que excedem o texto escrito. A memória se manifesta no gesto, na voz, no coro, no ritmo, na repetição, na presença coletiva e na relação direta com a plateia. Essa poética reconhece que a cultura negra brasileira é também um sistema de conhecimento produzido por corpos, comunidades e ancestralidades.

É por isso que a escolha do samba-reggae como eixo do novo espetáculo comemorativo possui força conceitual. Nascido nas ruas de Salvador e associado à criatividade dos blocos afro, o ritmo condensa experiências de afirmação cultural, invenção estética e mobilização política. Segundo a divulgação do projeto, a montagem dirigida por Lázaro Ramos pretende explorar suas dimensões cultural, política e estética, relacionando a tradição musical da cidade às narrativas da população negra.

A companhia como espaço de formação

A lista de artistas associados ao Bando evidencia sua função como polo de formação e profissionalização. Nomes como Lázaro Ramos, Érico Brás, Edvana Carvalho e Valdinéia Soriano, entre outros artistas que passaram por suas atividades, alcançaram projeção no teatro, no cinema e na televisão brasileiros. A oficina do grupo aparece, assim, não como atividade complementar, mas como uma tecnologia de acesso à cena e de construção de redes profissionais.

A Oficina de Performance Negra é um dos principais instrumentos dessa política de formação. Nas edições divulgadas para o ciclo comemorativo, a proposta inclui teatro, dança, música, memória e identidade, além de conteúdos técnico-profissionalizantes como iluminação cênica, sonorização, produção cultural e audiovisual. A participação é gratuita, e não é exigida experiência anterior em artes cênicas; as atividades são dirigidas a pessoas adultas e negras, com realização em diferentes polos de Salvador.

O desenho pedagógico é significativo porque amplia a ideia de talento. Formar artistas não significa apenas ensinar interpretação. Significa oferecer condições para que participantes compreendam o corpo, a voz, a história, a técnica, a produção e os mecanismos de circulação cultural. Ao incluir áreas como iluminação, som e produção, a oficina enfrenta uma desigualdade recorrente: a sub-representação negra não ocorre somente diante das câmeras ou no palco, mas também nos bastidores, nos cargos de decisão e na gestão dos recursos.

Escolas públicas e mediação cultural

O projeto comemorativo também prevê ações de mediação cultural em escolas públicas, apresentações para estudantes e circulação de espetáculos do repertório. Essa frente desloca o foco da formação de artistas para a formação de espectadores, professores e comunidades escolares.

A mediação cultural pode aproximar a obra de seus contextos históricos e estimular perguntas que permanecem depois da apresentação: como o racismo aparece na sociedade? Quem tem direito de representar quem? Como a escola pode enfrentar o preconceito? Quais memórias negras foram apagadas dos currículos e das narrativas oficiais? Quando articulada a debates e materiais pedagógicos, a ida do teatro à escola deixa de ser um evento isolado e se converte em processo educativo.

A escolha da escola pública é igualmente política. Ela reconhece que a democratização cultural depende de iniciativas capazes de alcançar estudantes para além dos circuitos tradicionais de consumo artístico. Em vez de esperar que todos cheguem ao teatro, o projeto cria condições para que o teatro chegue aos estudantes, levando consigo repertório, debate e possibilidade de identificação.

A comemoração de 35 anos ganha relevância justamente porque articula memória e continuidade. O grupo revisita seu repertório, mas também investe na criação; celebra artistas consagrados, mas abre oficinas para novos participantes; retorna a obras conhecidas, mas as reposiciona diante de problemas atuais. A efeméride torna-se, assim, uma prática de transmissão.

O projeto Bando de Teatro Olodum – 35 anos de Arte Negra tem patrocínio master da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, e realização do Instituto Todo Menino é um Rei, do Bando de Teatro Olodum e do Ministério da Cultura,