Websérie Cada olhar, uma Salvador: Rapha Dutra e Meneson Conceição
Publicado em 20.08.2026 às 15h 00 - atualizado em 20.08.2026 às 15h 55
Salvador não cabe em um único retrato. A cidade se revela, com o mar, as ladeiras, as manifestações culturais e as histórias de quem vive seus territórios, de diferentes maneiras, dependendo de quem olha.
É a partir dessa ideia que o o Visit Salvador da Bahia, canal oficial de turismo e cultura da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), apresenta a websérie “Cada olhar, uma Salvador”, campanha que celebra a pluralidade de perspectivas sobre a capital baiana.
O primeiro episódio apresenta os olhares de Rapha Dutra e Meneson Conceição. Os dois nasceram e cresceram na Cidade Baixa, mas desenvolveram formas muito particulares de transformar o lugar onde vivem em imagem.
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Salvador por RAPHA DUTRA
A relação de Rapha Dutra com Salvador começa na Ribeira, tradicional bairro localizado na Península Itapagipana, na Cidade Baixa. Foi ali que nasceu, cresceu e construiu parte importante de sua maneira de enxergar o mundo, em um território que reúne a presença do mar, o cotidiano e uma atmosfera marcada pela convivência entre moradores, pescadores, trabalhadores e visitantes.
A Igreja de Nossa Senhora da Penha, onde realizou seu ensaio para a websérie, está diretamente ligada a essa história. “A Penha é a igreja da minha rua. Nasci e cresci na Ribeira, e esse território me formou antes de eu ter qualquer relação com a fotografia”, conta a fotógrafa.
É nesse ambiente que Rapha desenvolveu uma fotografia baseada na observação, mais do que na busca por um resultado predefinido. O que a move a fotografar não é uma composição pensada de antemão, mas aquilo que a emociona no momento em que acontece. “O olhar não é isento, olhar pra alguém já é acompanhado de uma relação”, destaca, explicando que toda fotografia nasce da relação entre quem fotografa e quem é fotografado, um encontro que exige escuta, presença e tempo antes mesmo de qualquer clique.
Da Igreja da Penha à memória da fotografia negra
A Igreja da Penha, na Ribeira, é um local de conforto para Rapha. Fica perto da sua casa, na sua rua, presente em parte significativa da sua vida na Cidade Baixa. Mas a escolha do espaço para o ensaio se deu também por uma descoberta que somou uma camada a mais ao significado do lugar.
“Quando conheci a exposição do Zumví Arquivo Afro Fotográfico e o trabalho de Lázaro Roberto, descobri que o Zumví nasceu em 1990 em uma sala cedida pela própria Igreja da Penha. O arquivo mais importante da fotografia negra da Bahia começou na esquina onde eu aprendi a olhar”, revela a fotógrafa.
A exposição, realizada em São Paulo neste ano, conectou o lugar onde Rapha aprendeu a olhar a cidade à própria história da fotografia negra na Bahia e reforçou a ideia de que fotografar é, também, uma forma de lidar com a memória. Ter essa descoberta fora de Salvador fez com que a fotógrafa refletisse também sobre o processo de descobrir, à distância, histórias que sempre estiveram próximas.
“Como fotógrafa documental, que também se aventura na fotografia artística, eu me pergunto muito sobre memória. O que ela é, quem tem direito a ela, quem narra, como as relações se tecem dentro de uma imagem. Para mim, a fotografia é um objeto relacional, ela nasce do encontro entre quem fotografa e quem é fotografado. É um ofício que exige escuta ativa, presença e olhar sensível”, reflete.
O styling do ensaio nasceu da pesquisa do fotógrafo Lázaro Roberto sobre a cestaria, peça originária do Quilombo da Praia Grande, na Ilha de Maré, que chega à Feira de São Joaquim como objeto utilitário, ligado ao trabalho braçal de corpos negros masculinos. A condição fez Rapha Dutra refletir sobre a afetividade do homem negro, uma contradição que inspirou a ideia de colocar o modelo Anderson Danttas, ator, dançarino e bailarino, deslocando o objeto para um corpo contemporâneo, sensível, que se move com leveza.
A inspiração teve também como referência o calendário sagrado. Agosto é o mês de Obaluaiê, orixá ligado justamente à cura das feridas, e essa presença esteve por perto durante todo o processo de criação da fotógrafa.
“A cestaria vem do Quilombo da Praia Grande, na Ilha de Maré, e chega na Feira de São Joaquim como objeto utilitário, que serve às funções do mercado. Mas ela não fica só nisso. Ganha outra tonalidade dentro do sagrado, dentro da festa, nos balaios”, explica Rapha.
Régua e compasso
Rapha é uma mulher trans, e isso não é um detalhe à margem do seu trabalho. É parte de como ela caminha pela cidade, de como se relaciona com quem fotografa, de como transforma o clique em conversa. Para ela, a câmera funciona como uma mediadora nesse processo, um objeto que abre espaço para o diálogo antes mesmo que qualquer preconceito tenha chance de se instalar.
“Eu estou sempre acompanhada pela máquina. Isso cria, entre eu e o outro, uma nova camada que não é o preconceito, por exemplo, de eu ser uma mulher trans e travesti. A câmera exerce um intermédio e favorece um diálogo. A partir do momento que o diálogo existe, o outro pode descobrir que eu sou uma pessoa como qualquer outra e que a gente pode conversar”, relata Rapha.
No seu fazer fotográfico, entre o contato inicial e a aproximação, a conversa entra como ferramenta de trabalho, sobretudo movida pelo deboche. Rapha descreve a prática como um idioma próprio de Salvador, um jeito de estar no mundo que ela aprendeu na cidade e passou a usar a favor do próprio fazer fotográfico.
“É natural daqui, se eu chegar ali pra conversar com qualquer um, o deboche vai ser o idioma. Acho que é pra Salvador inteira, pensando direitinho, é nosso dialeto, a gente só sabe conversar assim. Eu uso o deboche como estratégia fotográfica, sem medo de errar”, explica.
“A Bahia já me deu, régua e compasso”, cita Rapha, em referência a Gilberto Gil. Salvador lhe ensinou conduta, ancestralidade, memória, um jeito de olhar e um pertencimento que ela carrega no corpo, na história e na câmera, e que segue moldando cada imagem que ela faz da cidade que a formou.
Salvador por MENESON CONCEIÇÃO
Também criado na Cidade Baixa, Meneson Conceição constrói sua fotografia a partir de noções de território, moda, identidade, memória e cultura, em uma relação com a imagem que começou ainda em casa, quando via o pai fotografar.
Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA, ele encontrou na fotografia uma forma de pesquisar questões de gênero, raça e sociedade, ao mesmo tempo em que aprofunda o olhar sobre sua própria história e sobre o território onde vive.
Em suas imagens, a Cidade Baixa aparece por meio de elementos que fazem parte da vida de Salvador, como a comunidade, os pescadores, a juventude, as águas, muitas vezes despercebidos para quem olha rápido, mas essenciais para entender a identidade da cidade. O fotógrafo conta que seu processo criativo começa com a observação, muito antes do clique.
“Minha imagem é desenhada. Eu sou muito observador, o que me prende são elementos que eu percebo que as pessoas têm intimidade”, conta Meneson.
Um lugar para enxergar Salvador
Para seu ensaio na websérie, Meneson escolheu o Humaitá e o Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, seus pontos de criação e descanso, que oferecem uma perspectiva privilegiada sobre Salvador e sua relação com a Baía de Todos os Santos.
O fotógrafo deu continuidade à série “Por onde a beleza pode estar”, desenvolvida a partir de signos, símbolos, cultura e tradição da Cidade Baixa, na qual comerciantes transeuntes aparecem em posição de destaque, ocupando um espaço com vista para a cidade, em uma proposta que transforma o cotidiano em interpretação ficcional.
“A beleza é menos um lugar ou um objeto material, e mais um motivo, um olhar místico, ao mesmo tempo que tem como importante papel da juventude na moldagem do discurso racial no Brasil. A juventude aparece em diferentes performances de uma experiência negra para além da expectativa colonial, a beleza também está nesse sentido”, reflete Meneson.
A imagem que chega antes de tudo
A relação de Meneson com a moda também nasceu dentro de casa, desde a infância, na forma como aprendeu sobre o valor de se apresentar ao mundo.
“Minha imagem chega antes de qualquer coisa”, afirma, numa frase que ajuda a entender também sua fotografia, já que antes mesmo da paisagem existe um olhar sobre quem ocupa aquele espaço, sobre como os corpos se apresentam e sobre quais histórias podem ser contadas a partir deles.
O cuidado com a imagem também está ligado à maneira como Meneson olha para Salvador. Ao falar sobre o que a cidade lhe deu que nenhum outro lugar daria, ele cita a beleza das pessoas, o contato com a natureza e uma leveza que reconhece como própria do território. A partir desses elementos, constrói sua fotografia e busca transformar em imagem aquilo que recebe do lugar onde nasceu e vive.
“Eu tento pelo menos devolver para Salvador o que a cidade me entregou. Essa é a valorização e o cuidado que eu tenho com meu território”, diz o fotógrafo.
Para descobrir Salvador, é preciso olhar
Os trabalhos de Rapha Dutra e Meneson Conceição mostram que, para descobrir Salvador de verdade, é preciso olhar com atenção.
Olhar o mar da Ribeira e perceber que ele é muito mais do que paisagem. Observar a Igreja da Penha e descobrir as histórias que atravessam suas paredes. Caminhar pela Cidade Baixa e reparar nas pessoas, nos comerciantes, nos pescadores e nos jovens que dão movimento ao território. Parar no Humaitá e contemplar a Baía de Todos-os-Santos por outra perspectiva.
É essa Salvador que Cada Olhar, uma Salvador convida a conhecer. Uma cidade de paisagens marcantes, mas também de histórias. De patrimônio, mas também de cotidiano. De mar, mas também de gente. Uma cidade que preserva sua memória enquanto continua produzindo novas formas de arte, cultura e criatividade.
Confira o episódio completo:
Por Giovanna Araújo
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