RUA – Roteiro Urbano de Arte de Salvador

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RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Fernanda Slama .

Obras de arte superinteressantes se misturam ao Centro Histórico de Salvador em uma grande galeria a céu aberto

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Betto Júnior Secom.

Talvez um dos mais procurados e conhecidos locais de Salvador seja o seu Centro Histórico. Passear pelas ruas enladeiradas do Pelourinho conhecendo cada centímetro deste local cultural e ancestral está na rota de prioridades dos passeios de visitantes e moradores. Mas, você que curte contemplar a vista lá de cima do Elevador Lacerda, da Praça da Cruz Caída ou do Terraço da Casa do Carnaval, além de olhar as belezas da Baía de Todos os Santos, já se perguntou o que tem para fazer lá embaixo, no Comércio? Pois a gente te responde: muitas coisas!

O Comércio foi o primeiro bairro de negócios organizado do país e teve protagonismo absoluto nesse segmento até a década de 1960. Hoje, depois de passar por um processo de modernização e requalificação através de melhorias de infraestrutura, mobilidade, valorização do patrimônio público, equipamentos estruturantes, além de ações culturais e eventos, o bairro vem se transformando.

Histórias dos bairros de Salvador: Comércio

Então, imagine um passeio a pé por este bairro que é uma síntese de Salvador: uma mistura de modernidade, história e patrimônio. Mercado Modelo, Terminal Turístico e Igreja da Conceição da Praia são pontos turísticos famosos por lá e, recentemente, foi lançada uma verdadeira galeria a céu aberto, disponível para quem deseja apreciar obras de arte fora de tours tradicionais. Ruas e praças do bairro estão ganhando obras de artes das mais diversas linguagens, que ficarão permanentemente no local.

O Projeto “RUA – Roteiro Urbano de Arte” veio para homenagear artistas plásticos históricos que, com suas obras, contribuíram para a construção do imaginário visual baiano, e, ao mesmo tempo, revelar a produção artística contemporânea herdeira desse legado. Neste primeiro momento, contempla o trabalho de sete artistas e homenageia outros sete.

São instalações, esculturas, intervenções artísticas e grafites de expoentes artistas baianos da atualidade concebidas para ocupar espaços específicos no bairro do Comércio. As obras dialogam com o entorno arquitetônico e com os conceitos relacionados aos respectivos homenageados.

O projeto, desenvolvido pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), com a curadoria do baiano radicado em São Paulo, Daniel Rangel, faz parte da política da fundação de valorização do centro da cidade. O Visit Salvador da Bahia te leva ao RUA – Roteiro Urbano de Arte de Salvador para que, além de conhecer melhor o bairro, você possa fazer fotos lindas e ficar sabendo o conceito por trás de cada obra.

Uma reverência visual contemporânea

Nossa dica é começar pelo Plano Inclinado Gonçalves, ali coladinho à Casa do Carnaval. Assim, você já pode até conhecer o primeiro museu da folia antes de pegar o bondinho para o Comércio. Aqui estamos na Área 1 do mapa.

Casa do Carnaval

Viva Páride Bernabó- Bel Borba homenageia Carybé

A instalação que o artista criou para o projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte, denominado “Viva Páride Bernabó”, modifica a paisagem de um cartão postal – o Plano Inclinado Gonçalves – que conecta a Cidade Alta, o Pelourinho, com a Cidade Baixa. Uma obra que respira o próprio entorno, com uma paleta de cores que estão presentes no Pelourinho e nas roupas dos transeuntes. O formato de serpente se aproveita da arquitetura horizontal inclinada do local e do movimento do bondinho para criar um colorido cinético dinâmico.

Viva Páride Bernabó homenageia Carybé, cujo nome de batismo era Hector Julio Páride Bernabó, artista que, apesar de não ter nascido na Bahia, possui traços que se identificam com o imaginário da cultura baiana. A relação entre Carybé e Bel Borba vai além da questão de abordarem uma temática comum – a baianidade. Ela se aproxima, ainda, na sutilidade como ambos formalizam suas obras.
Depois da descida, você chega à Rua Francisco Gonçalves, onde se encontra a segunda parada deste passeio. No mapa, estamos na Área 2.

Juntó – Ayrson Heráclito homenageia Mestre Didi

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Fernanda Slama .

A escultura “Juntó”, de Ayrson Heráclito, é uma obra que remete a um totem ou coluna com emblemas sagrados. A palavra “juntó” se refere ao segundo orixá ou orixá adjunto das pessoas, responsável pelo seu equilíbrio e por acompanhar os orixás principais que regem suas cabeças. A escultura, no âmbito do projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte, é uma homenagem ao escultor, sacerdote e escritor baiano, Mestre Didi.

A sensação de suspensão e elevação provocada pela escala da obra se relaciona formalmente com os eguns, entidades com as quais o Mestre Didi se relacionava, como o seu Xaxará de Obaluaiyê (seu juntó) e o Oxé colocado na “cabeça” da escultura, que alude diretamente a Xangô, que era seu orixá regente.
A ressignificação contemporânea da cultura afro-brasileira é o elemento central do trabalho artístico de Ayrson Heráclito, que vem traduzindo e atualizando a temática através das linguagens atuais. O encontro de

Mestre Didi e Heráclito se torna possível por meio de uma percepção estética e conceitual que se cruza na circularidade temporal como em um xirê, ritual do candomblé que conecta homens e divindades.
Na mesma rua, temos outra obra, instalada propositalmente em uma das muitas encruzilhadas que existem na Cidade Baixa. Estamos agora na área 3 do mapa.

Laroyê – Ray Vianna homenageia Mario Cravo Júnior

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Fernanda Slama .

O movimento retorcido das formas, as cores utilizadas e o título da escultura “Laroyê” é uma referência direta a Exu, orixá mensageiro entre o céu e a terra, responsável por abrir os caminhos, e que vive nas encruzilhadas. A escultura de Ray Vianna foi criada especialmente para o projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte.

Laroyê homenageia ainda o artista Mario Cravo Júnior, que foi um dos mais importantes escultores baianos e que era um grande forjador de “exus”. A influência de Cravo Júnior no trabalho de Ray Vianna vai além da questão escultórica, e se encontra ainda na vontade artística de ocupação do espaço urbano. Escultores orgânicos, de tempos distintos, que revelam por meio de suas obras uma leveza improvável de materiais pesados, como o aço, concreto e fibra de vidro, e outros menos rígidos, como o lápis, as tintas e os pincéis.

Conexão grafite

É neste momento do passeio que começam as intervenções de grafite. Idealizadas e produzidas pelos artistas Bigod, Júlio e Prisk (MUSAS), as artes feitas por eles são também conectoras entre uma instalação e outra. Quando menos se espera, aparece um muro ou uma via colorida, pintada no asfalto, te levando pelo bairro. Os desenhos são um convite para diminuir o ritmo e admirar a arte que se apresenta, como parte do cenário urbano.

Os artistas do MUSAS fizeram intervenções na Avenida da França, Avenida Estados Unidos, Rua Miguel Calmon e Rua Conselheiro Dantas. Aqui neste roteiro, é o trabalho deles que te leva até a Rua do Ourives, área 4 do mapa.

Jardim para alguns silêncios – Lanussi Pasquali homenageia Joãozito

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Fernanda Slama .

A intervenção artística “Jardim para alguns silêncios”, de Lanussi Pasquali, propõe uma cisão radical e orgânica no meio da paisagem de concreto da Cidade Baixa. O desenho rizomático do jardim e da escultura poética estão espelhados e a obra se torna uma fissura no tempo e no espaço, ao resgatar plantas e palavras que sempre estiveram ali.

Os poemas vazados na estrutura de ferro, que se movem e deformam de acordo com o sol e a incidência da luz, são de autoria do artista visual Joãozito, que é aqui homenageado. Uma boa sugestão é chegar ao meio dia, assim as palavras ficam perfeitamente dispostas no chão.

A instalação foi pensada especialmente para ocupar o espaço onde está instalada, uma obra de arte específica (site specific), criada no âmbito do projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte. O trabalho de Lanussi Pasquali esteve intimamente ligado ao de Joãozito nos últimos anos, uma vez que foram parceiros de arte e vida, até a passagem de Joãozito.

As palavras de Joãozito aqui ecoam, mas, suas ideias também tornam-se, de alguma forma, realidade, uma vez que ele sonhava com projetos de ocupação artística na área do comércio desde os anos 90. Jardim para alguns silêncios é, portanto, um projeto concebido por Lanussi, e mais que homenagem, é uma continuação do trabalho do qual Joãozito também faz parte.

Assim, seguimos através dos grafites de Bigod, Júlio e Prisk (MUSAS) até a Praça da Inglaterra (Rua Estados Unidos), Área 5 do mapa.

Haras para M.B.O – Iêda Oliveira homenageia M.B.O.

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Betto Júnior Secom.

A instalação “Haras para M.B.O” transporta a praça da Inglaterra para outro espaço e outro tempo. Uma viagem que nos leva diretamente ao universo das praças e parques de diversão do interior, mas que, antigamente, também eram vistos na capital. O mais legal desta obra é que ela é interativa, e crianças e adultos podem “brincar” nas instalações.

A cultura popular é a fonte de inspiração para a artista visual Iêda Oliveira, que ressignifica seus elementos por meio de conceitos contemporâneos, como interatividade e serialidade. A instalação que a artista concebeu para o projeto homenageia artistas e artesãos populares baianos na figura de M.B.O., que além de ter sido um importante pintor naif, era seu pai. Apesar de ter sido inspirada culturalmente pelo ambiente no qual foi criada, foi Iêda quem influenciou o pai a se tornar artista ou talvez o tenha convencido de que sempre foi um.

A proposta de Haras para M.B.O é que as pessoas reflitam sobre a presença da cultura popular em nosso dia a dia, mas que também participem e interajam com as obras e se tornem coautores das mesmas.
Logo em frente, também na Praça da Inglaterra, só que na altura da Rua Miguel Calmon, chegamos à Área 6. Aqui, você vê também muitas intervenções de grafite feitas especialmente para o projeto.

Maternos – Zuarte homenageia Reinaldo Eckenberg

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Fernanda Slama .

À primeira vista, a série de cinco esculturas “Maternos” causa uma estranheza ao espectador. Figuras antropomórficas que se fundem com utensílios de uso cotidiano em uma colagem improvável cheia de curvas deformadas. Aos poucos, o humor das composições se sobressai e inicia-se um processo de aproximação afetiva com os personagens, que parecem, afinal, terem vindo de outro planeta.

Em verdade, as obras foram inspiradas nas figuras surrealistas de Reinaldo Eckenberg, artista que modelava sonhos e mesmo os que pareciam pesadelos eram carregados de muito humor. Para homenagear o artista, Zuarte mergulhou no universo psicodélico kitsch do imaginário de Eckenberg para criar a série de Maternos.

Com uma trajetória que transita entre as artes visuais e a cenografia, Zuarte consegue compartilhar sentimentos criativos com grande rigor formal e generosidade. O artista se apropria de uma estética com a qual conviveu, absorvendo e transformando, criando uma espécie de antropofagia “eckenberguiana”.

Mais uma vez, as artes dos artistas do MUSAS te guiam para a próxima e última parada. Chegamos na Área 7, Rua da Grécia.

Lágrimas – Vinicius S.A. homenageia Rubens Valentin

RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Betto Júnior Secom.

A instalação “Lágrimas”, de Vinicius S.A., nos transporta para uma dimensão onde o tempo e o espaço parecem ter congelado diante de nossos olhos. Um portal feito de elementos cotidianos, como lâmpadas de vidro, nylon e água, que criam uma atmosfera imersiva mística e envolvente.

A obra Lágrimas já foi exposta 18 vezes, em 15 cidades diferentes no Brasil, Alemanha e Estados Unidos, sendo visitada por cerca de 800.000 pessoas. As montagens variam de acordo com o espaço, aportando em Salvador, em pleno bairro do Comércio.

A beleza formal da composição é realçada pela incidência da luminosidade que rasga o cacho de vidro como um feixe de energia viva e presente no local. Lágrimas ativam uma sensação etérea pacificadora suprarreligiosa, que faz refletir sobre a necessidade de desacelerar para poder desfrutar o momento presente.

Lágrimas é uma homenagem ao artista Rubem Valentin. As aproximações entre ambos artistas encontram-se na relação que possuem com a espiritualidade, na preocupação formal e na capacidade de manipularem o espaço e o tempo com suas obras.

O projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte faz parte da campanha da Prefeitura Municipal de Salvador de valorização do Centro Histórico da cidade, criada para estimular moradores e turistas a redescobrirem a região. Este roteiro é um convite para conhecer a cidade com um outro olhar, através de obras que falam não só da expressão e estilo dos artistas, mas ajudam a contar a história da Primeira Capital do Brasil.

Por Fernanda Slama
Coordenadora de conteúdo do portal

Nota:

O texto teve base no material de apoio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), contendo explicações aprofundadas sobre o projeto RUA – Roteiro Urbano de Arte.

Agradecimento especial a Fernando Guerreiro, presidente da FGM, e sua equipe, que visitaram conosco as instalações.


RUA Roteiro Urbano de Arte. Salvador Bahia. Foto Betto Júnior Secom.

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