O poder das folhas na cura do corpo e da alma

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Entenda como terapias e rituais fitoenergéticos podem ajudar no equilíbrio físico e emocional

Por Meire Oliveira

Muito associado aos ritos em religiões de matriz africana – Kosí Ewé, Kosí Orixá (sem folha, não há orixá) – o banho de folha atua nas esferas física, mental e espiritual e integra o legado formador da identidade cultural baiana. E sim, é possível, independente da sua crença religiosa, obter os benefícios da fitoenergia (energia das folhas) promovendo o equilíbrio e atraindo a vibração que deseja. Entramos nesse universo, e você vai aprender como preparar banhos, harmonizar seu lar, dicas de autocuidado, além de conhecer pontos de venda e indicações de livros e filmes sobre o assunto.

Com foco na mistura desses elementos na água para o banho, o principal benefício é potencializar as energias que queremos trazer para nossa vida. Assim, limpeza espiritual, prosperidade, proteção, calmaria, energia vital estão na lista dos pedidos mais comuns nesse rito de autocuidado. Como resume a composição ”Banho de Folha” (Luedji Luna e Emillie Lapa), “Um punhado de folhas sagradas/ Pra me curar, pra me afastar de todo mal”.

E como explica a bióloga e doutora em Desenvolvimento do Meio Ambiente, Sueli Conceição, é necessário estabelecer uma conexão logo no início do processo.

“É preciso estabelecer uma relação com a energia que está se buscando na planta, que é um ser vivo e vai proporcionar esse equilíbrio. Por isso, é essencial assumir sua responsabilidade nesse processo de cura”, disse a especialista.

Cuidados

O uso religioso obedece a uma série de critérios que vai desde a determinação do que será usado, a depender do objetivo e orixá relacionado ao processo, passando pela pessoa específica que pode retirar as folhas na natureza, até o protocolo a ser obedecido no preparo do banho, dentre outros. Nesse cenário, o orixá Ossain detém o poder de despertar as virtudes terapêuticas das plantas que curam no plano físico e espiritual. Nesse sentido, as indicações ao longo desse texto não comprometem o campo energético de quem fizer uso desses elementos da natureza.

No entanto, a utilização dissociada do viés sagrado, não dispensa cuidados que contribuem para o sucesso do procedimento. Use, de preferência, flores e ervas frescas ou desidratadas. Se tiver a oportunidade de colher a folha em seu ambiente, verbalize sua intenção.

“Peça licença para manusear, agradeça, diga o motivo de estar fazendo aquilo e que precisa contar com a energia daquele ser vivo para o que deseja”, orienta Sueli que também é religiosa do candomblé.

A manhã é o período indicado para retirada das folhas, já que os princípios bioativos estão mais latentes, antes das 9h, quando o sol está mais quente. Depois, a orientação é deixar a folha descansar por 4 a 6 horas para promover a recuperação do estresse causado pela retirada.

“Tenha o cuidado de colher apenas as folhas, e não o talo, para proporcionar a renovação da planta”, explica a bióloga.

Para quem vai comprar as folhas em feiras ou mercados, a observação é a melhor aliada. O acondicionamento e o aspecto devem ser levados em consideração. “Locais onde é permitido o manuseio constante de quem passa, depõem contra o processo de cura, sem contar a aparência que pode revelar o estado de putrefação”, explica Sueli, que também é fundadora da Iya Omi cosmética natural, que, no próximo mês de julho, lançará um curso sobre orientação do uso correto das ervas no contexto fitoenergético.

Dicas valiosas

Feira de São Joaquim. Calçada. Salvador Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

1 Antes do uso, as folhas compradas em feiras devem ser higienizadas em solução com vinagre de maçã (uma colher de chá para 1 l de água) e penduradas para secagem em uma área que alterne sombra e sol.

2 São dois os preparos mais comuns dos banhos: a maceração (extração do sumo esfregando as folhas com as mãos na água) e o chá. No primeiro, como o contato com a planta dura mais, possibilita a “conversa” sobre o que se deseja com aquele uso.

3 Para as intenções focadas no despertar, ativação, o ideal é o banho frio. Já para provocar o relaxamento e sono, a temperatura morna é mais indicada.

4 Por último, mas não menos importante, tome um banho comum antes do banho que vai promover esse encontro mágico em seu rito de autocuidado.
Sua casa na mesma sintonia

Depois de cuidar do corpo, é hora de deixar a casa na mesma sintonia. O espaço da sua residência também deve ser mantido em equilíbrio. “É o lugar onde recarregamos nossas energias, trabalhamos, e deve ser preparado”, explica a especialista. Folhas de pitanga, aroeira e são gonçalinho equilibram o ambiente e chamam prosperidade, felicidade. “A água com essas folhas maceradas também pode ser usada para lavar o chão da casa, passar pano. As desidratadas, juntamente com o alecrim, podem ser colocadas no incenso”, conta Sueli.

Em ramos em vasos, podemos focar em cada ambiente. Alfazema, cidreira e alecrim para locais de descanso como o quarto. O cômodo do home office precisa de concentração e harmonização, proporcionados pelo alecrim e o patchouli. A energia do amor é atraída pelas pétalas de rosa e patchouli. Pimenteira, arruda macho e manjericão graúdo afastam energias ruins no trabalho. Na porta de casa, é bom ter espada de Ogum e comigo ninguém pode para rebater energias negativas.

Receitas: aprenda como fazer alguns banhos de folhas e ervas

Sono reparador

Como fazer: macere 2 xícaras de chá de flores de lavanda secas em 1 litro de água e deixe em fogo baixo por meia hora e, depois, deixe esfriar e coe. Após o banho normal, derrame o chá sobre todo o corpo.

Equilibrar os sentimentos

Como fazer: faça o chá com duas xícaras de chá de cavalinha em 1,5 litro de água, deixe descansar por 20 minutos e derrame sobre o corpo após o banho normal. Não enxague.
Atrair prosperidade

Como fazer: uma das opções é misturar dois pacotes de canela em pau, 2,5 l de água, adicione um punhado de açúcar e tome o banho da cabeça aos pés. Deixe o corpo secar naturalmente. É recomendável fazer durante o dia.

Como fazer: a outra forma é, em 1 litro de água, coloque um ramo de manjericão miúdo, adicione ao chá de alpiste e canela. Tomar o banho da cabeça aos pés.

Alívio e bem-estar

Como fazer: ferva um pacote de orégano seco em 1,5 litro de água. Após o banho normal, jogue o chá dos ombros para baixo.
Acalmar e reduzir o stress

Como fazer: ferva 1 litro de água, coloque 4 colheres de sopa de flores de camomila secas e deixe em infusão de 10 a 15 minutos antes de usar.
Relaxar após um dia estressante e aliviar as dores físicas

Dois punhados de capim-limão (capim-santo ou capim-cidreira) e dois punhados de camomila em dois litros de água. Faça o chá e tome o banho.
Melhorar as tensões causadas pelo período menstrual

Coloque 1 litro de água para aquecer. Antes de chegar ao ponto de fervura, desligue o fogo. Depois, coloque um ramo de alecrim, um ramo de manjericão e um ramo de poejo e deixe descansar por 10 minutos em recipiente tampado. Preferencialmente, tome ele morno. A receita pode ser usada como banho ou ingerida como chá. Caso a opção seja beber o chá, não deve ultrapassar a quantidade de 1 litro por dia.

Afastar energia ruim e de desânimo

Em 1 litro de água, coloque folhas de patchouli, abre-caminho e folha de louro (um ramo de cada folha) e macere. Tomar banho da cabeça aos pés.
Feiras, filmes e livros

Onde comprar

Feira de São Joaquim:
Av. Frederico Pontes, s/n | Comércio
Funcionamento: todos os dias, das 5h às 17h

Feira das Sete Portas:
Av. Cônego Pereira, S/N, Sete Portas
Diariamente, a partir das 7h

Feira de Itapuã
Núcleo de Abastecimento Feira de Itapuã (Av. Dorival Caymmi, 05):
Funcionamento: segunda a sábado (5h às 18h) e domingo (5h às 14h).
O bairro conta ainda com a Feira Antiga, localizada na rua Genebaldo Figueredo, onde funciona o Mercado Municipal de Itapuã.

Botica Rhol
Projeto sociocultural tem como principal objetivo a geração de renda para povos de terreiros de candomblé, a partir de produtos artesanais, utilizando plantas medicinais, aromáticas e litúrgicas. Comercializa cremes, xampus, gel, sabonetes, pomadas sabonetes e xaropes. É fruto do Projeto RHOL – Rede de Hortos de Plantas Medicinais e Litúrgicas, cujo principal objetivo é gerar cosméticos derivados das plantas medicinais e aromáticas cultivadas em 12 terreiros da Região Metropolitana de Salvador.
R. João de Deus, 8 – Pelourinho, das 9h às 19h. Telefone: (71) 99720-2871

Fimes

Filme Jardim das Folhas Sagradas

A expansão imobiliária da cidade faz com que o candomblé, tradicional religião afro-brasileira ligada à natureza, seja afetada. A causa é que o candomblé pede a existência de lugares amplos e naturais, para a realização de sua liturgia. É neste contexto que Miguel Bonfim (Antônio Godi), um ex-bancário que é filho de uma yalorixá e um jornalista de esquerda, decide criar o Jardim das Folhas Sagradas.

Documentário CANDOMBLÉ – Espaço Sagrado – 1975 Cineasta Geraldo Sarno

O filme documenta o espaço sagrado de um candomblé com suas diferentes origens e associações entre etnias africanas e indígenas: a casa de Exu e a comida sagrada, a camarinha, as ervas para fins rituais e os presentes para Iemanjá.

Folhas Encantadas

O documentário foi realizado para integrar o Projeto “Dicionário de Folhas do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá”, que tem como objetivo transformar em um dicionário multimídia o conhecimento das folhas utilizadas neste importante terreiro de candomblé da Bahia, bem como seus mitos e cânticos. O trabalho teve como base o livro “O que as Folhas Cantam (para quem canta folha)”, de Mãe Stella de Oxóssi e Graziela Domini. As folhas, assim como toda natureza, têm para o candomblé uma importância fundamental, são fonte de ensinamento e de cura. Mãe Stella conta, através de cantos e mitos, sobre a beleza e a força do culto às folhas e o cotidiano do terreiro.

Livros

Plantas Medicinais no Brasil. Nativas e Exóticas

Trata-se da principal obra sobre esse tema, de caráter científico, publicada no Brasil. Contempla 394 espécies da flora nativa e exótica cultivadas no país, organizadas segundo o APG II. São 608 espécies, cada uma é apresentada em uma única página, ilustrada com 2 fotografias, um detalhe do ramo florífero e uma vista de conjunto de sua infestação. Saiba mais neste link.

Ewé Òrìsà: Uso Litúrgico e Terapêutico dos Vegetais nas Casas de Candomblé Jêje-Nagô

A história dos africanos e seus descendentes nas Américas é repleta de intercâmbios entre os dois continentes. Várias espécies de vegetais foram trazidas da África para o Brasil com fins litúrgicos, e muitas foram daqui levadas e adaptadas pelos povos das diversas regiões da atual Nigéria. Através de uma linguagem acessível, Ewé Òrìsà: Uso Litúrgico e Terapêutico dos Vegetais nas Casas de Candomblé Jêje-Nagô, de José Flavio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão, apresenta o sistema classificatório dos vegetais, segundo a própria visão dos jêje-nagôs, e o culto em louvor a Osányìn (o patrono dos vegetais), que está inserido na tradição oracular do sistema divinatório de Ifá com seus korin ewé (cânticos sagrados). Ewé Òrìsà constitui-se em leitura de grande utilidade, não só para iniciados, mas também para todos que se dedicam aos estudos dos vegetais nas áreas da religião, antropologia, etnobotânica e botânica. Saiba mais neste link.

Música

Salve as folhas (Gerônimo Santana e Ildásio Tavares)

Sobre nossa colaboradora:

Meire Oliveira é jornalista, editora do jornal A TARDE e sócia-fundadora da revista e site eletrônicos Flor de Dendê, especializados em cultura afro-sertaneja. @meirefreitasfr e @flordedende



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