Festa de Nossa Senhora da Boa Morte

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Em Cachoeira, distante 120 Km da capital baiana, acontece uma das celebrações mais importantes da Bahia

Festa da Boa Morte. Cachoeira, Bahia. Foto: Vinicius Xavier.

“As pessoas falam de escravidão de uma forma tão natural… mas a escravidão foi uma coisa tão séria que o negro não acreditava, nunca acreditou na libertação, sabia? Depois de estar escravizado, ele nunca acreditou que teria liberdade. O negro só acreditava na verdadeira liberdade após a morte. Por isso, Boa Morte. Naquele processo, ele pedia pra morrer, porque acreditava que, morrendo, seu espírito seguiria livre para a África. A morte, para ele, seria a libertação. Por isso que eu falo: a África sempre celebrou a Morte, a Morte é um estado de liberdade. (…)” Valmir Pereira dos Santos, em texto contido no livro Nós Os Tincoãs.

A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte é uma das celebrações religiosas mais importantes e interessantes da Bahia. Ela acontece todos os anos de 13 a 17 de agosto no município de Cachoeira, distante 120 Km da capital baiana. De tão grandioso, o cortejo que percorre as ruas da cidade, com mulheres vestidas em trajes de gala e segurando velas, chama a atenção de turistas, pesquisadores, historiadores e fotógrafos do mundo todo, ávidos por conhecer a identidade cultural local a fundo.

É para esta “Cidade Heroica” e “Cidade Monumento” às margens do rio Paraguaçu, no Recôncavo baiano, que vamos te levar. Muito mais que uma festa, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte de Cachoeira, com todas suas peculiares funções, representa a resistência da mulher negra no Brasil.

O fotógrafo Vinicius Xavier faz fotografia documental, contemporânea, mas sobretudo política. Seus trabalhos têm uma intensidade muito grande e, ao mesmo tempo, uma simplicidade inquietante. São deles as imagens que ilustram essa matéria.

“No meu trabalho, eu tento dar voz através de imagens às pessoas que realmente têm valor no Brasil, que são as pessoas do povo, as pessoas que estão ali lutando no dia a dia, mas lutando com afeto, com respeito aos outros, com união”, explica Vinicius.

Intrinsecamente ligada à Vida e à Morte

Festa da Boa Morte. Cachoeira, Bahia. Foto: Vinicius Xavier.

Os símbolos da Boa Morte (cajado, tocha e brasão), roupas, comidas e rituais fazem menção a essa passagem espiritual do Aiyê ao Orun – em iorubá, Aiyê é a Terra ou o mundo físico, paralelo ao Orun, mundo espiritual. Segundo as próprias irmãs da Boa Morte, a devoção à Nossa Senhora da Boa Morte surgiu vinculada a um pedido pelo fim da escravidão feito pelas africanas à Nossa Senhora. Os escravos pediam proteção e uma morte tranquila, sem martírio. Logo, alforriados e livres das agruras da escravidão, comemoraram o dia de Nossa Senhora da Glória com comidas e danças na sede da Irmandade.

Na tradição católica, o título Nossa Senhora da Glória refere-se à passagem da Virgem Maria da vida terrena para a vida celestial. Usa-se o título de Nossa Senhora da Boa Morte para que ela rogue por nós na hora de nossa morte, da qual depende a salvação eterna da alma. Grande parte da tradição católica e ortodoxa crê na Dormição de Maria, quando Nossa Senhora teria morrido e, depois, ressuscitado por Nosso Senhor e assunta aos Céus. Essas e outras histórias foram retiradas de um dos únicos documentos escritos sobre a festa, o livro Festas da Boa Morte – Caderno do IPAC, 2.

As duas interpretações se unem quando voltamos no tempo. No Império Romano, início da era cristã, encontra-se o embrião das irmandades cristãs, chamadas, todavia, de pagãs, por serem, naquele período, marginalizadas pelas autoridades. Ainda segundo o livro, essas organizações foram verdadeiras vias de mão dupla, pois podiam servir como “instrumento moderador de tensões sociais”, mas, também, legitimar os africanos e seus descendentes um cunho institucional para além da esfera religiosa, fazendo deles agentes políticos. Ao participar de práticas católicas, os escravos podiam se projetar para além das fronteiras do trabalho.

Segundo Valmir Pereira dos Santos, músico, agitador cultural e participante ativo da Irmandade, as irmãs da Boa Morte são as mães do duplo pertencimento que nós podemos sinalizar como de sincretismo e pluralidade. Para ele, elas primeiro vão buscar na Igreja a religiosidade como grito de liberdade de expressão dentro da sociedade, para ter acesso à sociedade. Depois, então, no terreiro de candomblé, elas buscam a ancestralidade africana.

Engana-se quem acha que a Irmandade da Boa Morte se reporta à Igreja católica, como é o caso da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos*. Ledo engano também se acha que todas as irmãs são de uma mesma nação, portanto de um mesmo candomblé. A Irmandade tem seus próprios rituais e esses são secretos. Essa história quem conta é Adenor Gondim, um dos maiores fotógrafos do país que, desde a década de 80, fotografa aspectos da cultura, religiosidade e cotidiano da Bahia. Em 1992, iniciou sua pesquisa sobre a Irmandade da Boa Morte, que dura até hoje. Adenor não apenas fotografou, como fez amizades dentro da irmandade. Também por isso, presenciou momentos de intimidade das irmãs, de conversas e trocas.

“Uma vez estava em uma sala onde algumas irmãs conversavam sobre ’seus rituais‘. Falavam sobre o uso dessa ou daquela erva: eu faço assim, mas eu faço daquele jeito. Aquilo foi uma aula. Uma troca de uma riqueza indescritível”, lembra Adenor.

A irmandade da Boa Morte se organizou por etnias ecléticas de origens Jeje, Ketu e Nagô forjando alianças interétnicas, que sempre fizeram essas fronteiras fluidas no contexto das conveniências.

A Igreja da Barroquinha em Salvador

Poucas pessoas sabem, mas havia aqui em Salvador, desde o século XIX, uma devoção negra exclusivamente feminina, constituída sob evocação de Nossa Senhora da Boa Morte, localizada na Igreja da Barroquinha, onde é o hoje o Centro Cultural Igreja da Barroquinha, na Praça Castro Alves. Lá também existia, desde o século XVIII, a Irmandade de Nossa Senhora dos Martírios.

Consta no estudo da historiadora Magnair Santos Barbosa que esta igreja era um importante reduto africano na década de 1820. A Igreja abrigava aos fundos, num terreno arrendado, o candomblé Àya Omi Àse Aìrá Intilé, tido como o primeiro terreiro urbano da Cidade de Salvador. A festa de Assunção da Virgem, a face viva de Nossa Senhora, celebrada no dia 15 de agosto naquela igreja, foi considerada “a mais concorrida, de mais extenso percurso e mais aparatosa apresentação das procissões que já se fizeram na Bahia”*. Os homens dos Martírios e de outras irmandades negras acompanhavam as procissões da Boa Morte, tendo aqueles lugares de destaque entre as devotas negras e crioulas ascendentes socialmente, chamadas, por isso, “negras do partido alto”*

Quando Salvador entrou em decadência, somado às inúmeras rebeliões escravas, na década de 1870, forte indício para uma desestruturação social, motivou trânsitos entre a capital e seu Recôncavo. Começou também a perseguição, e muitas irmãs, já como mulheres livres, retornaram à África, outras foram para outros estados do Brasil e parte significativa foi para o Recôncavo.

Resistência da mulher negra no Brasil

No livro do IPAC, Magnair Santos Barbosa explica a importância da mulher negra nos movimentos abolicionistas do Brasil. Com o movimento de transição vindo da então capital, em Cachoeira, por exemplo, a irmandade da Boa Morte ficou instalada numa casa de n°41, na Rua da Matriz, atual Rua Ana Nery, chamada de Casa Estrela, por ter na sua calçada uma estrela de granito de cinco pontas. Este seria o cerne da irmandade. Ali circulava um grande número de pessoas, estabelecendo relações religiosas, culturais, comerciais e políticas.

Ascendendo socialmente, essas mulheres conseguiam juntar dinheiro (leia-se diversos tipos de objetos de valor) como trabalhadoras urbanas para comprar a própria liberdade ou a de parentes e amigos. Formava-se então, em Cachoeira, uma proeminente elite africana que transitava entre as classes abastadas da região.

“Diálogos cruzados”

Nesta caminhada, muita coisa mudou, inclusive dentro da estrutura da Irmandade. Na segunda metade da década de 1980, começa um movimento da Igreja Católica no sentido de controlar as irmandades. Impedidas de realizar suas celebrações, as irmãs foram acolhidas pela Igreja Brasileira local. A Casa Estrela já não era mais a sede da Irmandade. Desde os anos 1990 a nova sede se instalou na Rua 13 de Maio e Largo D’Ajuda, em três casarões que foram doados a elas. Adenor Gondim conta que não apenas a Irmandade da Boa Morte mas muitas irmandades seculares se desestruturaram, reduzindo o número de associados, além do poder de atuação.

Procissão como ato de fé e devoção

Depois de entrar de fato no universo histórico e religioso da Irmandade, fizemos este guia para quem quer entender todos os detalhes desta festa dia a dia.

“Esmola geral”

Festa da Boa Morte. Cachoeira, Bahia. Foto: Vinicius Xavier.

Existe uma comissão da festa escolhida em uma eleição anual para os cargos, o que impossibilita a concentração de poder. A Juíza Perpétua (cargo máximo que hoje se encontra em aberto), a Provedora, a Tesoureira e a Escrivã, cada uma com os seus afazeres, são as responsáveis por cada detalhe da celebração.

Curiosidade: sabe-se quantas vezes e quantos cargos uma irmã já assumiu observando as tiras brancas horizontais colocadas nas barras de suas saias. Elas podem até repetir um mesmo cargo várias vezes, no entanto, jamais podem regredir na hierarquia.

Uma semana após a eleição, uma semana antes da festa, as irmãs saem pelas principais ruas de Cachoeira, portando sacolas vermelhas, bordadas com o símbolo da Irmandade, fazendo peditório pelas casas, comércio e feira livre. São as “irmãs de bolsas” que recolhem verba para a festa. Hoje são quatro irmãs que pedem a “esmola”, o que representa mais uma obrigação do que um meio de arrecadar fundos.

Há aproximadamente 15 anos, a artista plástica e designer Goya Lopes faz as saias das “irmãs de bolsa”. Goya conta histórias através de estampas e este também é o pensamento para as estampas feitas nas saias das irmãs.

“Eu estampo o tecido que geralmente tem a cor dos santos das quatro, eu misturo os santos (em um padrão). Esse ano eu fiz um detalhe de cada orixá com sua ferramenta na saia para ficar bem personalizado. É com esta indumentária colorida que elas pedem esmola, depois elas não saem novamente. Quase ninguém sabe disso”, Goya explica.

O primeiro dia – 13 de agosto

18h30 – Saída do corpo de Nossa Senhora da Boa Morte da Capela de Nossa Senhora D’Ajuda em procissão pelas ruas da cidade

Este é o dia das irmãs falecidas. Essa missa é o momento em que lembram seus nomes, louvando suas memórias.

Vestidas de branco – significa uma passagem pacífica, uma boa morte na religião afro-brasileira – dirigem-se com velas sobre um pedestal à Capela de Nossa Senhora D’Ajuda, onde rezam e incensam o ambiente em torno da imagem de Nossa Senhora morta. Depois, saem em procissão carregando a imagem postada sobre um andor rumo à Igreja Matriz – Igreja Nossa Senhora do Rosário. Param apenas uma vez, em frente à Casa Estrela (a primeira sede), quando a santa vira-se, demonstrando quão importante é aquele local.

Depois é servida a “Ceia Branca” para a Mãe Maria. Numa grande mesa, postam-se alimentos que não levam azeite de dendê, nem pimenta. Tudo que vai à mesa é branco: arroz, pão e diversos tipos de peixe. Normalmente é no Largo D’Ajuda.

Segundo dia – 14 de agosto

19h – Missa de corpo presente de Nossa Senhora na Capela de Nossa Senhora da Boa Morte.

21h – Procissão do enterro da Nossa Senhora da Boa Morte pelas principais ruas de Cachoeira.

Este é o momento do “enterro simbólico”, a dormição de Maria. Com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte já na igreja, as irmãs dirigem-se para lá saindo da sede da irmandade em procissão noturna, carregando velas e vestidas com a farda/beca: saia preta plissada e blusa branca de manga, lenço branco na cintura e uma chinela branca. Exceto as “irmãs de bolsa”, que se vestem todos os dias festivos de branco. Durante a missa na Capela, as irmãs tiram o véu, se posicionam diante da Virgem como se pedissem sua intercessão.

A cerimônia festiva termina com as irmãs em volta da imagem, incensada pelo padre, e com a procissão de Nossa Senhora da Boa Morte, que percorre as principais ruas da cidade até se recolher na capela de Nossa Senhora da Boa Morte.

O dia de Nossa Senhora da Glória – 15 de agosto

05h – Alvorada com fogos de artifício

10h – Missa solene da assunção de Nossa Senhora da Igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário.

11h – Procissão festiva em homenagem a Nossa Senhora da Glória e posse da comissão organizadora 2019.

12h – Valsa e samba de roda no Largo D’Ajuda.

13h – Almoço das irmãs, convidados e pessoas da comunidade na sede da irmandade.

16h – Samba de roda no Largo D’Ajuda

O terceiro dia festivo é o mais esperado, o dia da Nossa Senhora da Glória (ou Nossa Senhora da Assunção). A procissão sai pela manhã da sede da irmandade, seguida por filarmônica local. Levando nas mãos flores, as irmãs carregam o andor de Nossa Senhora da Glória, auxiliadas por alguns homens. Na Igreja da Matriz, o ambiente é, anteriormente, incensado pelo padre.

As irmãs comemoram a Assunção de Nossa Senhora adornadas com correntes e colares, vestidas com fardas/beca, só que com o pano das costas do lado vermelho (traje de gala). Elas exprimem a alegria que sentem com a elevação de Nossa Senhora aos céus e com a libertação da escravidão.

A roupa preta significa o luto e o pano (bioco) é uma referência aos mulçumanos. Tudo o que vestem hoje vem do tempo das fundadoras. Significa a representação de um pouquinho de cada povo que veio, cada nação. O lado preto do pano significa o luto e o vermelho a Glória de Nossa Senhora, o sangue, o coração, a alegria.

Neste dia, a procissão é mais longa, com o seguinte roteiro: Casa da Estrela, feira, pavilhão da Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB, entrada da Ponte D. Pedro II, capela da sede da Irmandade (onde deixam a santa), seguindo novamente para a Igreja da Matriz. Lá acontece a transferência dos cargos, com posse da nova comissão de festa.

Após recolher a procissão na sede da Irmandade, as irmãs dançam valsa tocada por filarmônica loca . A valsa significa “folia, salvar a vida”.

16 de agosto

18h – Suculento cozido seguido de samba de roda no Largo D’Ajuda.

O ato de dar comida equivale, para as irmãs, à abundância e prosperidade.

“A parte da gastronomia, do cozido que é ofertado para a comunidade, o samba de roda, é quando o sagrado caminha lado a lado com o profano. Essa questão de separar o sagrado do profano, na Bahia não existe, isso é lenda. É assim que é e não tem nada de errado nisso”, Vinicius Xavier explica.

17 de agosto

18h – Caruru seguido de samba de roda e encerramento da Festa 2019

Após o último dia festivo, as irmãs entregam às águas, em forma de presente, flores perfumadas, renovando, assim, compromisso com a continuidade da vida.

“As irmãs nas suas compreensões de uma temporalidade cultural peculiar misturaram os orixás, os voduns e os caboclos, dessa heroica terra cachoeirana aos santos da Igreja, às sereias, às serpentes sagradas que dão movimento ao mundo e à terra, com as receitas de maniçoba, de moqueca de folha, de pititinga, de licor de jenipapo, de bolo de milho, de lelê de milho, e ao farto tabuleiro onde impera o acarajé. Pois tudo flui e reflui.” Raul Lody, Antropólogo e Museólogo (extraído do livro do IPAC).

Por Fernanda Slama
Coordenadora de Conteúdo

Livros:

Nós os Tincoãs – realização da Sanzala Artística Cultural. Supervisão Artística e Direção de Mateus Aleluia. Concepção artística e curatorial de Gringo Cardia.

Festas da Boa Morte – Caderno do IPAC, 2 (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Fundação Pedro Calmon.

Notas:

Valmir Pereira dos Santos – músico, agitador cultural e participante ativo da Irmandade da Boa Morte há 22 anos.

Irmandade do Rosário dos Homens Pretos – a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fundada no ano de 1685 e elevada à categoria de Ordem Terceira em 2 de julho de 1899.

O estudo da historiadora Magnair Santos Barbosa está no livro: Caderno do IPAC, 2 (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Fundação Pedro Calmon.

* “a mais concorrida, de mais extenso percurso e mais aparatosa apresentação das procissões que já se fizeram na Bahia”* / “negras do partido alto” – Magnair Santos Barbosa faz menções ao livro “Notícias da Bahia, 1850, de Pierre Verger“ (Editora Currupio).



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