Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.
Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

As Ganhadeiras de Itapuã

Publicado em 20.12.2018 às 20h 56 - atualizado em 18.02.2022 às 19h 28

Afroturismo
História e Cultura

História viva: cantigas e sambas vindos de memórias afetivas

Na beira da Lagoa do Abaeté, embaixo da sombra de uma árvore, Dona Maria de Xindo, uma senhora bonita com sua roupa colorida e torço estampado, conta histórias sobre o Abaeté para quatro crianças em volta dela. “Aquele morro de lá era altíssimo, o Véu da Noiva.” Apontando para o outro lado ela continua: “A gente subia aqui para estender roupas. Um tempo que as águas do Abaeté vinham até aqui em cima”. Contos de lembranças vividas lavando roupas de ganho.

Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

As Ganhadeiras de Itapuã são história viva, referência cultural batizado com este nome em homenagem às mulheres que desde o século XIX e início do século XX, faziam “lavagem de ganho” (lavando roupas) ou saiam com seus balaios a pé para vender peixe e quitutes pela cidade e assim ganhar o sustento da família. O grupo se formou por mulheres guerreiras que se reuniam para conversar sobre as antigas tradições de Itapuã, cantar e dançar samba de roda. Em 2004, os grupo As Ganhadeiras tomou forma e hoje conta a história de Salvador, da nossa cultura, das mulheres do Brasil, em forma de cantigas e sambas.

Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

A iniciativa cultural surgiu nas casas de Dona Cabocla e de Dona Mariinha. Dona Cabocla faleceu, mas Dona Mariinha permanece e hoje vê a neta e a bisneta participando do grupo. A antiga e a nova geração comprometidas para o fortalecimento da identidade cultural de Itapuã e no cuidado desse resgate das memórias afetivas de cada uma, buscando as canções, os momentos do passado para fazer um repertório.

Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

Desde que começou, o grupo já recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio Culturas Populares – Mestre Duda 100 Anos de Frevo – Concedido pelo Ministério da Cultura (SID). Foi reconhecido como iniciativa exemplar, no âmbito das Culturas Populares do Brasil. Teve 3 indicações do Prêmio Música Popular Brasileira e ganharam dois deles. Em 2016, participaram do encerramento dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em um show junto com Mariene de Castro.

No Rio de Janeiro, participaram do Festival Back to Black onde também se apresentaram Alcione e Gilberto Gil, Festival Vila Lobos, no Teatro Tom Jobim, e em Salvador, do 20º PercPan. Também fizeram apresentações nos shows de Caetano Veloso, Maria Bethânia e Nós Os Tincoãs com Mateus Aleluia. Elas se preparam agora para gravarem um DVD no edital da Natura Musical, onde sete grupos da Bahia foram contemplados.

Ganhadeiras de Itapuã. Lagoa de Abaeté, Salvador, Bahia. Foto: Amanda Oliveira.

O grupo conta com a participação de 17 senhoras (Cantadeiras, Ganhadeiras, Lavadeiras) que com suas vozes de tom muito peculiar encantam os ouvintes a cada apresentação realizada. Ainda 10 crianças, seis músicos que tocam instrumentos de corda e percussão.

Antônia Sofia das Virgens Santos, do alto dos seus 11 aninhos, já entendeu muito bem o que é ser uma das Ganhadeiras.

“ Eu gosto muito desse grupo porque é a minha família, faz parte da minha vida. E o que é preciso para ser uma Ganhadeira? Vem do amor. A amizade e a família. Precisa ralar bastante por que todas essas mulheres aqui conseguiram tudo pela ’raiz da árvore (vinda da África)’ que elas plantaram e hoje essa raiz está linda, ela é uma árvore com flores e frutas lindas. Elas quem plantaram e eu agradeço muito por estar neste grupo maravilhoso, com essas mulheres lindas.”

Serviço

Contato para shows pelas redes oficiais. @asganhadeirasdeitapua

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