Conheça 15 jovens artistas da periferia de Salvador

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Arte periférica em evidência

Nova geração musical de Salvador utiliza sua própria narrativa como potencial artístico

Impulsionada pela cultura digital e com influências fortes das ruas e da cultura da cidade, uma juventude criativa e articulada reinventa a cena musical de Salvador. Convidamos Ítalo Oliveira, o Pivoman, para te contar sobre alguns destes artistas em um texto em primeira pessoa, com detalhes e pontos de vista que só quem vive a cena sabe.

“Pivoman” é o pseudônimo do músico, produtor cultural, artista visual, pesquisador musical e arte-educador Ítalo Oliveira, uma mente inquieta e viciada em música que tenta compartilhar com o público os frutos musicais de suas pesquisas. É ele quem te leva a conhecer esses novos artistas oriundos da Periferia de Salvador e, por meio de suas músicas, olhar a cidade com outros olhos. Estes jovens artistas são protagonistas do novo cenário musical em Salvador.

Conheça a música de jovens artistas da periferia de Salvador, selecionados por Pivoman. Salve e dê o play!

Uma nova Salvador presente na música de 15 jovens artistas

Por Pivoman

Pivoman. Salvador Bahia. Foto Paola Alfamor .

Em 1975, o Ilê Aiyê ocupou o carnaval de Salvador com a música “Que bloco é esse”, exaltando a cultura negra e a periferia da cidade, reivindicando direitos raciais e ocupação do espaço urbano. Este foi um marco que revolucionou a música soteropolitana e elevou o patamar das pautas identitárias no Brasil. Com a virada do século XXI, o acesso à tecnologia digital e um maior tensionamento acerca de questões de raça, gênero e classe, emerge um novo bloco de artistas, que irá reivindicar seu lugar de fala, retomar questões já trazidas pelo Ilê e apresentar uma visão não caricata sobre a cidade de Salvador.

A cultura digital tem revolucionado a produção artística no mundo inteiro, tanto na estética visual, quanto sonora. Não coincidentemente, segundo pesquisa da Queen Mary University of London e do Imperial College London, a cultura hip hop e o rap estão sendo mais influentes do que os Beatles em sua geração. Ao mesmo tempo, estamos presenciando a música eletrônica pop da Costa Oeste africana se espalhando pelo mundo inteiro e influenciando artistas como Beyoncé e GoldLink. Cada vez mais, gêneros musicais populares estão sendo produzidos e reinventados digitalmente, o que viabilizou o surgimento e visibilidade de muitos artistas que, sem esses recursos, não teriam a mesma oportunidade de potencializar seu trabalho.

Em Salvador, não foi diferente. Nomes como Baiana System, Baco Exú do Blues, Àttooxxá, Larissa Luz, Vandal, Rap Nova Era, Trap Funk & Alívio e Makonnen Tafari surgem nesse contexto. E eles não são os únicos: a cidade respira e ferve por meio de uma juventude artisticamente articulada e com sede de expressão.

Num breve passeio pelas ruas soteropolitanas, é notável a pulsação de um cenário musical efervescente. No Rio Vermelho, essa evidência se confirma na programação de casas como o Mercadão CC, Bombar e Commons. No centro da cidade, a Casa Preta no bairro Dois de Julho, Oliveiras no Santo Antônio e Mouraria 53 em Nazaré estão sempre propondo novos artistas em sua programação. Na Cidade Baixa, tem o espaço cultural da Freedom Soul Records, que desempenha um importante trabalho com artistas da localidade.

Coletivos como Bonke Music e Balostrada Records lançam, mensalmente, uma enxurrada de videoclipes e músicas que são reflexo da visão artística desta nova geração soteropolitana. A partir disso, convido vocês para conhecerem uma nova Salvador por meio de 15 novos artistas que listei. Como já diziam os Novos Baianos: “dê um rolê e você vai ouvir”.

1. Yan Cloud: o “cabelo quadrado” mais foda da city

“Jovem negro, periférico”, assim se autointitula Yan Cloud. Aos 23 anos, o cantor tem uma visão artística avançada. Formado em publicidade, também atua profissionalmente como diretor de arte.
Alívio” (2016) é o seu primeiro álbum. Após o single “Última Letra Pensando Em Você”, passou a ganhar destaque nas redes sociais e acumular boas parcerias.

“Até que chegou ‘Que Calor’, né? Que foi uma parada batendo. Feat com Nêssa e Zamba. Teve uma boa repercussão e foi quando comecei a misturar as coisas, antes era mais rap”, conta Yan.

Morador do bairro de 7 Abril, começou a desenvolver iniciativas culturais em sua quebrada para suprir uma lacuna do Estado. “Meu bairro nunca teve nenhum projeto cultural. A primeira ação envolvendo música e poesia que ocorreu, fui eu que fiz junto com três brothers”.

Questionado sobre influências musicais no local onde reside, responde: “Meu bairro nunca me influenciou muito musicalmente, porém as coisas que eu vi lá começaram a me dar conteúdo e vivência pra colocar na música”.

Em setembro lançou o single “Bafana”, prévia do disco “PINKBOY”, lançado em outubro de 2020. O álbum promete elevar o patamar de Yan enquanto artista.

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2. Nêssa: fábrica de hits da música pop soteropolitana

Formada em Design e Desenho Industrial pela Universidade Estadual da Bahia, Vanessa Ribeiro é ilustradora de mão cheia. Após uma grave lesão por esforço repetitivo, começou a enxergar na música uma segunda profissão.

“Estava bastante desmotivada na minha área, acabei pegando uma tendinite muito grave. Não me via trabalhando a vida inteira como ilustradora e vi na música essa possibilidade”, conta ela.

Bem posicionada nas redes sociais, Nêssa emplacou os hits “Que calor”, “Slow Motion”, “Não Se Apega” e “Aquele Swing”, esse último em parceria com Zamba e ÀTTOOXXÁ. Seu lançamento mais recente alcançou mais de meio milhão de ouvintes no Spotify.

Aos 27 anos, a cantora e compositora sabe muito bem o quer. “Eu já entrei na música pensando realmente em ganhar dinheiro. Nunca romantizei, não era uma coisa que queria desde criança, vim me descobrir e me apaixonar pela música já trabalhando”, diz ela. “Escolhi o pop [gênero musical] porque era um estilo que não era expressivo aqui na cidade”.

Moradora de Pau da Lima, Nêssa expressa bem a visão do jovem que sabe planejar e colocar em prática suas ideias em busca de valorização profissional.

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3. Rei Lacoste: quando o cinema encontra o hip hop

Rei Lacoste. Salvador Bahia. Foto Caio Araújo

Membro do selo de trap Balostrada Records, Rei Lacoste é o pseudônimo do cineasta e pesquisador Caio Araújo. Em seu EP de estreia “Trapcália Vol.1”, de 2018, e na mixtape “V1D4L0K4T4MB3M4M4“, de 2019, ele estende para a música a técnica da colagem, que utiliza na criação de imagens.

“Tenho interesse sobretudo em processos antropofágicos na música e acho que o hip hop hoje é um terreno muito fértil para isso”, diz.

Rei Lacoste vem revolucionando a estética de videoclipes de rap na cidade: de 2018 até hoje, dirigiu 20 deles. “Depois Daquele Beijo”, “Carmen Sandiego” e “De Um Coração Puro” – este último seu mais recente lançamento, em parceria com Fiteck – são exemplos do seu modo de produção.

Em março de 2020, tive o prazer de participar junto com o artista de uma turnê no México, oportunidade que me fez vivenciar o seu processo criativo. Como resultado da viagem, surgiu o clipe-documentário “Mexicanboy”.

Morador da Boca do Rio, “favela de praia”, como ele diz, o rapper atribui sua criatividade à importância histórica do local. “Acho que faço parte de uma certa tradição da existência de muitos artistas no bairro”, afirma. “E, com certeza, a cidade em si me deu régua e compasso para a criação”. Rei Lacoste traz em seu trabalho um extenso arsenal de referências; vale a pena o mergulho.

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4. Cronista do Morro: “não bata de frente”

Cronista do Morro. Salvador Bahia. Foto Lukas Raion

Meu primeiro contato com Cronista do Morro foi no “Baile da Under” – uma de suas primeiras apresentações. Fiquei espantado com a força e segurança das palavras que saiam de sua boca. Pensei: “Quem é essa mulher? De onde ela saiu?” Com o final do show, me aproximei e no primeiro contato tivemos uma conversa maravilhosa. Por trás das rimas agressivas presentes em suas letras, Aila mostra ser uma pessoa muito espirituosa, tranquila e conhecedora de música.

Moradora do bairro da Liberdade – berço da resistência cultural afrosoteropolitana –, dá continuidade a essa tradição, nos apresentando um trabalho que narra o cotidiano vivido por uma mulher negra, lésbica e residente de periferia.

Terror Da Leste” é sua música mais expressiva, com clipe premiado no Music Video Festival Brasil e uma versão em parceria com a banda Afrocidade, que resultou em uma apresentação no trio do festival Afropunk no carnaval de 2020. Cronista também é residente da plataforma musical Filhxs & Netxs, idealizada pelo produtor musical Mahal Pita. “Torro”, seu single de estreia, me deixa ansioso para saber dos próximos planos da artista.

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5. Di Cerqueira: pé na porta da homofobia no rap

A Cidade Baixa, popularmente conhecida como CBX, sempre foi um lugar de efervescência musical. Morador da Ribeira, Di Cerqueira reforça o potencial artístico da Península de Itapagipe e nos traz uma musicalidade potente com letras que falam sobre o cotidiano LGBTQIA+ em Salvador.

Estudante de escola pública, viu em um projeto de arte-educação a possibilidade de desenvolver técnicas de canto. “Comecei a descobrir minha voz aí. Participei de coral no colégio, foi louco! Meu contato com arte e com música começam aí”, diz.

Em seguida, fala sobre a superação de um trauma: “quando eu era criança, eu sempre fui altão. E muito de minha vida eu fui reprimido porque minha voz era muito agudinha”, conta. “Era o momento todo o pessoal falando: ‘fala que nem homem’. O que gerou um complexo com minha voz. Foi um processo muito árduo até eu entender que poderia ser um cantor”.

Em 2019, Di Cerqueira foi o primeiro rapper a ganhar o Prêmio de Música Educadora FM na categoria Melhor Intérprete Vocal, com o single “Grandeza”. Colaborador de coletivos como Batekoo e Afrobapho, está preparando seu primeiro álbum (ainda sem data de lançamento). No mês de agosto, lançou o clipe da música “DPZV”, denunciando a LGBTfobia sofrida nas ruas soteropolitanas. A cada lançamento, Di mostra “ser gigante pela própria natureza”, como diz uma de suas letras.

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6. Áurea Semiseria: a carreta da ONZE

Aúrea Semiseria. Salvador Bahia. Foto Sista Kátia

Cria de Cajazeiras, um dos bairros mais populosos de Salvador, Áurea Semiseria iniciou sua carreira na música gospel. Influenciada pela cultura Hip Hop e por grupos de rap de sua “quebrada”, desde cedo passou a ser figura carimbada nas rodas de rima da cidade.

Seu apelido, “A Carreta da Onze”, número que faz referência à localidade de onde é oriunda (Cajazeiras XI), é também o título do seu futuro EP, com 3 singles e um clipe lançado pela Balostrada Records. A cantora afirma ser diretamente influenciada pela cena artística de seu bairro, que, devido à densidade demográfica e desenvolvimento comercial, é popularmente chamado de “Cajacity”.

“Primeiro grupo de rap daqui de Salvador que eu conheci foi Saca Só, e são daqui de Cajazeiras. Meu bairro é minha maior referência sobre tudo: musicalmente e socialmente”, conta Áurea.

Dona de uma fala carinhosa e melódica, Áurea é voz ativa cantando a realidade da mulher negra, gorda e periférica. Aos 22 anos, segue firme se articulando nacionalmente. Já fez parceria com um dos maiores nomes do rap nacional, Emicida; recentemente participou do programa Brasil Grime Show, levando o nome de seu bairro-cidade para o mundo.

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7. Baby Venas: poesia retirante nas entranhas de Salvador

Baby Venas. Salvador Bahia. Foto Heder Novais

Rimas bem elaboradas, voz melódica e uma sinceridade incrível. Desde quando fazia parte do Coletivo Roupa Suja, Venas já me chamava a atenção.
Nascido no interior da Bahia e crescido em Salvador, se apegou à escrita para se afastar da violência vivenciada nas periferias da capital baiana.

“Há mais ou menos 5 anos, o rap salvou a minha vida”, conta.

Morador do Engenho Velho da Federação, iniciou sua carreira quando morava no bairro de São Caetano e desenvolveu sua lírica afiada quando residiu no Pelourinho, centro histórico de Salvador. “Em todos os bairros que morei, realidades semelhantes de exclusão social, violência policial, pobreza, crime e o mesmo descontentamento no peito”, diz, explicando o tema de suas letras. E continua: “Minhas músicas nascem das minhas vivências. Esse sentimento não me permite narrar uma vida falsa”.

Aldeia Hits (2016), foi seu primeiro EP. Em 2019, intensificou o lançamento de singles e videoclipes: Paz, Bala V, Peças e Perdido são exemplos do ritmo de produção do artista, que utiliza do seu lugar de fala enquanto homem negro, morador de periferia, para questionar a romantização do crime no Hip Hop. 2020 é o ano do seu segundo álbum, com lançamento previsto para novembro. Baby Venas é joia rara do trap de Salcity*.

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8. Maya: suburbana é faca amolada

Maya. Salvador Bahia. Foto Kevin Aux

Antigamente uma região evitada por grande parte da população, o subúrbio ferroviário é hoje reconhecido por sua beleza, e cobiçado pelos roteiros turísticos de Salvador. Ali é o ponto de partida musical da cantora Maya.

“Ter crescido em Periperi aguçou o meu lado para sonoridade groovada, como o pagode”, diz. “Os paredões são intrínsecos aos bairros periféricos, é cultural. A gente já curtia dessa forma e o consumo nos faz adquirir as referências pela vivência”, explica Maya

Filha de pai artista plástico e mãe apreciadora musical, começou a cantar aos 8 anos de idade e compõe desde a adolescência. Admiradora de Black music, Hip Hop e Pagode baiano, expressa isso em seu trabalho.

Faca Amolada”, seu mais novo single, foi produzido por Faustino Beats e pelo paulistano Diabel Music. A faixa está bombando nas plataformas digitais e um “challenge” coreográfico está viralizando nas redes. “É o primeiro challenge a fazer barulho em Salvador. Há vários percalços no caminho do artista independente, vários acessos que nos são negados, principalmente para mulheres negras”, diz. “Creio que a internet facilitou e nos fez criar os nossos próprios acessos”.

A música de Maya fala por si: “As meninas de Salcity não brincam, tão avançadas”.

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9. Marcola Bituca: ouvir um rap em Itapuã

Marcola. Salvador Bahia Foto divulgação

Itapuã foi eternizada em nosso imaginário por meio das canções de Dorival Caymmi, das batidas percussivas do Malê Debalê, das vozes das Ganhadeiras. É nesse berço cultural que nasce Marcola.
Com disco recém-lançado, Os Últimos Filhos de Sião (2020), participou anteriormente dos projetos musicais Sambatrônica e Turma do Bairro, reafirmando que sua sagacidade musical tem raízes “itapuãzeiras” (como se autodenominam os nativos).

“Eu sempre estive muito relacionado com a cultura do meu bairro. Estar imerso nesse caldeirão cultural me deu a possibilidade de sempre buscar inovar nos meus trabalhos”, diz.

Marcola se mostra visionário em seu mais recente lançamento, passeando muito bem pelo rap, pagode eletrônico, dub, kizomba e experimentando timbres da música eletrônica underground inglesa. Nomes como Rincon Sapiência, MCDO (vocalista do Afrocidade) e Caboclo de Cobre participam do disco, com 9 faixas produzidas por Aquahertz Beats. Em agosto, participou do programa Estúdio Showlivre, mostrando um trabalho que pode ser considerado um dos melhores lançamentos do rap nacional em 2020.

“Somos uma geração que cresceu à medida que a internet vem crescendo, artistas que distribuem seu próprio material nas plataformas digitais, que já entendem sobre algoritmo, home studio, uma geração faça-você-mesmo”, diz, justificando seu papel no bom escoamento de seu álbum.

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10. Murilo Chester: original CBX

Murilo Chester. Salvador Bahia. Foto Herder Novais

Nascido numa família de músicos, Chester sempre viu na arte uma forma de ganhar a vida. “Residente fiel da Cidade Baixa”, como ele mesmo afirma, aos 11 anos, ganhou um violão de presente e começou a estudar por conta própria. Ficou conhecido por publicar vídeos na internet reproduzindo clássicos da MPB. A partir de vivências na cultura Hip Hop, começou a desenvolver um trabalho autoral.

“Comecei a sentir essa necessidade de colocar meu sentimento no papel, comecei a escrever, compor. Foi uma fase de minha vida que me ensinou bastante. Precisava daquilo pra ser quem eu sou hoje. Precisava daquilo para fazer meu novo disco que estou fazendo hoje, tá ligado?”, conta ele.

Com previsão de lançamento para outubro, “Planos & Danos” conta com produções de RDD (Áttooxá), K9, ÉOCROSS, Calibre (primeiro produtor a mesclar rap com pagode), Zamba e Gabriel dos Anjos. O clipe do single “Sequência de Pente” faz qualquer um ficar ansioso para ouvir o álbum. Enquanto isso não acontece, Chester nos apresenta “Passin da Maloka”, EP em parceria com Shook – seu parceiro de longa data.

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11. Underismo: autonomia e autogestão

Underismo. Salvador Bahia. Foto Igor Santhz

Underismo nasce como uma plataforma de conexão entre artistas produtores de música, moda, design e afins. Um dos grupos mais expressivos do rap underground em Salvador, gravou seu primeiro EP, “Resíduos” (2018), a partir de vendas de roupas produzidas pelo coletivo.

“De fato, a gente faz o trampo totalmente independente, tá ligado? A gente fez 20 camisas e conseguiu vender pra pagar nossa gravação”, conta Ares, integrante do grupo.

Adeptos do “faça-você-mesmo”, o coletivo empreendeu sua própria festa, “Baile da Under”, com intuito de escoar o próprio trabalho e dar visibilidade a artistas que partilhassem da mesma ideia – inclusive, foi onde conheci mais profundamente o trabalho do grupo e de outros artistas.

Em parceria com a produtora Gana, lançaram a “Demotape”, momento que possibilitou a inserção de gêneros musicais populares, como funk e pagode, no processo criativo do grupo. “A partir daí, a gente conseguiu ter um alcance interessante, as pessoas começaram a escutar mais por causa desta questão do pagode misturado. Não somente isso, como também a essência musical das pessoas que estavam fazendo aquele trabalho com referencial real”, diz Ares.

Após a boa aceitação dos singles “Preto Chave” e “Di bombeira”, se preparam para abrir o cadeado do primeiro álbum.

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12. Pivete Nobre: Cajazeiras é o mundo

Pivete Nobre. Salvador Bahia. Foto De Valor

Felipe, também conhecido como “Guri”, é mais uma cria da frutífera cena de Cajazeiras, alcunhada de “nova Atlanta” (cidade berço do trap estadunidense). Conhecida por sua larga dimensão, é de se convir que muitos artistas do cenário rap/trap de Salvador estejam surgindo de lá, e Pivete Nobre é um dos mais originais deles.

Aos 26 anos, já carrega consigo uma vasta carreira. Fundador do clássico grupo de rap “Saca Só” e do selo Estilo Solto, membro do selo e coletivo UGangue, tatuador, produtor, beatmaker, Pivete expressa em seu trabalho vivências adquiridas na localidade onde reside.

“Comecei em 2012. Desde então, sempre produzindo e escrevendo rap, contando as histórias daqui de Cajazeiras, mas também histórias que são do mundo, de vários bairros periféricos. Essa foi minha primeira motivação”, conta ele.

Em 2019, lançou a mixtape Pivete Nobre, que traz um ótimo diálogo entre vivências urbanas de Salvador e o conceito musical do trap do sudeste dos EUA. Esse lançamento já é um clássico. Não posso deixar de citar o hipnótico single “axoquequebreiumcoraçao”: um hino entre os fãs, essa faixa já ficou no repeat uma manhã inteira no meu music player. O Pivete é mesmo Nobre.

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13. A Travestis: de vendedora ambulante a sucesso dos paredões.

A Travestis. Salvador Bahia. Foto Ian Moraes.

Piauiense radicada em Salvador, a cantora Tertuliana, carinhosamente chamada de Tertu, aos 24 anos já traz consigo uma potente trajetória. Bacharel em História da Arte pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, cidade onde desenvolveu suas práticas artísticas, Tertu já foi cordelista e DJ de funk. Ao terminar seus estudos e retornar para Salvador, não teve oportunidades de trabalho na área e decidiu ser vendedora ambulante no Porto da Barra. “Como eu não tive essa oportunidade, eu tive a ideia de vender brigadeiro na praia, e no brigadeiro, eu cantava várias músicas”, conta.

A partir daí, tornou-se conhecida. Com incentivo de clientes e pessoas próximas, venceu um trauma com a própria voz e investiu na carreira de cantora, assinando como A Travestis. “Aí criei meus hits, né?”. Após ter suas canções reproduzidas por artistas conhecidos e trazer o discurso transexual para o pagode proibidão de Salvador, A Travestis prepara seu primeiro álbum (sem data prevista de lançamento).

Recentemente, lançou um single em parceria com A Paulilo (multiartista criadora do primeiro paredão* LGBTQIA+ de Salvador), firmando cada vez mais sua “guia” no mercado musical.

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14. Caboclo de Cobre: resistência ameríndia do centro de Salvador

Caboclo de Cobre. Salvador Bahia. Foto Adeloyá Magnoni.

Um final de tarde, bebendo uma cerveja no Boteco do Helder (bairro Dois de Julho, centro de Salvador), de repente, toca um som que me faz desistir do próximo gole e colocar minha escuta em estado de atenção.

Curioso que sou, fui procurar saber quem era o autor, e o dono do bar me respondeu: “é Cabôco – Experiência!”. Investigando mais, descobri que se trata do projeto musical do pesquisador e multiartista Luiz Guimarães, que há 6 anos se dedica a revirar sua ancestralidade, evidenciando e reafirmando a importância da herança afro-ameríndia na formação do povo brasileiro.

Com dois álbuns lançados, Primeira Flecha (2019) e Segunda Flecha (2020), Caboclo de Cobre traz temas musicais que passam pelo pagodão eletrônico, funk carioca e brega funk. Suas letras partem de vivências e pensamentos que reforçam a relevância de sua contínua luta contra estigmas deixados pelo processo de colonização no Brasil. “É só PENSADA violenta”, nos alerta em sua faixa de estreia. Luiz também é coordenador do coletivo Aldeia e cogestor do espaço de cultura Casa Preta, no bairro do Dois de Julho, centro de Salvador.

“Meu trabalho é uma forma de resistência artística e de exercer minha ancestralidade no centro da cidade”, afirma.

Convictamente, mostra ser um artista mais que necessário para esse momento distópico que estamos vivendo.

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15. Trevo: peregrino urbano buscando as raízes.

Trevo. Salvador Bahia. Foto Igor Santhz.

Ex-integrante do grupo “Underismo”, Trevo é um jovem artista de muitas facetas. Iniciou sua carreira como poeta, recitando em ônibus coletivos que circulavam pelo centro de Salvador. Essa atividade lhe rendeu dinheiro suficiente para gravar suas primeiras músicas e se firmar como MC. Oriundo da escola de rap do bairro de São Caetano, Trevo se destacou por suas rimas terem uma identidade genuinamente ligada às ruas soteropolitanas.

“Consumi muito da visão do centro: a pichação, as peculiaridades da arquitetura, do urbanismo, do underground”, diz Trevo.

Foi colaborador dos principais lançamentos do seu antigo grupo, e, paralelamente, lançou o aclamado disco solo “Nada Novo Sob o Sol”, produzido por Felipe Mimoso. Aos 21 anos, esbanjou sinceridade ao abdicar de uma carreira relativamente encaminhada no rap, em busca de se reconectar com suas origens. “Estava meio deprimido, sentindo coisas demais. Saí da Under, me afastei da Gana (produtora) e fiquei na onda de parar com o rap, parar com a música, na verdade”, conta.

Ao se conectar novamente com seu bairro, Trevo se redescobriu musicalmente e no mês de novembro de 2020 lançará o EP “Toda Vida”, produzido por LIPHS. No mês de outubro, sai o clipe do single “MT”, prévia do novo momento da carreira do artista. “Por que não lançar um EP de pagode agora, misturando as influências do trap, que é o que eu já faço? Nasce então o EP ‘Toda Vida’”, conta, dando uma dica do que está por vir.

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Nota:

Salcity* – uma espécie de apelido para Cidade de Salvador: Sal (Salvador), city (cidade).

Paredão* – o objetivo é colocar para dançar quem estiver por perto. O nome surgiu do empilhamento de caixas de som formando uma parede. Hoje, carros com porta-malas equipados com som potente também são chamados de paredões. Comum em grande parte do país, principalmente nas periferias.



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