As delícias da culinária baiana: Torta Búlgara

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Conheça a misteriosa história da torta de chocolate tipicamente soteropolitana

Torta Búlgara. Restaurante Di Liana. Salvador Bahia. Foto Gabriel Marinho.

Quando a gente pensa em gastronomia baiana, logo vem à mente uma bela moqueca, ou acarajé, abará, vatapá, caruru, lambreta, uma boa posta de vermelho frito e tantas outras delícias, quase todas com dendê. Para quem gosta de doces, deve estar pensando agora em um picolé capelinha de amendoim, umbu ou cajá, um bolinho de estudante quentinho, a taboca e as cocadas. E será que você conhece todas as delícias da culinária baiana mesmo?

Dentre os queridinhos da Bahia, tem duas estrelas deste “Hall da fama” que boa parte do Brasil desconhece: o pãozinho delícia e a torta búlgara. A gente já contou aqui a história do pãozinho mais querido dos baianos e agora vamos te contar um pouco dessa maravilhosa – e misteriosa – bomba calórica de chocolate.

A receita da torta búlgara é simples, com apenas quatro ingredientes: ovos, chocolate em pó, açúcar e manteiga. Sem farinha de trigo, sem leite e muito cremosa, tem um aspecto de bolo solado, meio casca grossa. Está parecendo estranho, mas acredite, dê a primeira colherada e prepare-se para se apaixonar. Acompanhada geralmente de creme de leite ou sorvete de creme, é doce na medida certa, lembra um pouco o petit gateau francês e a torta brownie americana.

E só vem da Bulgária se o país for ali no Porto da Barra, ou perto do Corredor da Vitória, porque acredite você: a torta nasceu aqui em Salvador. Se você é de fora da cidade, provavelmente nunca ouviu falar dessa delícia. Tipicamente baiana, tem origem misteriosa. Você vai achar quem diga que a receita foi criada há muito tempo, talvez até de quando a farinha de trigo era coisa rara. Mas o fato é que a tal búlgara caiu no gosto popular e hoje está presente em quase todos os cardápios de sobremesas de restaurantes, docerias e cafeterias da cidade.

Muitos especulam sobre seu surgimento. Uma das quituteiras mais famosas e queridas da Bahia, Aldacir dos Santos, a Dadá, apresenta uma versão muito parecida com a torta em seu restaurante “O Sorriso da Dadá”, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. Será que foi ela quem inventou? Essa é uma resposta que nunca iremos saber. Mas já fica a dica: quando for ao restaurante dela, procure pela sobremesa chamada “Negão da Dadá”, aí você conta para gente o que achou.

Outra versão interessante é a da família do publicitário Guilherme Caccicco. Ele conta que a bisavó, Dona Maria da Pureza da Silva Costa, era doceira de mão cheia, mas só fazia doces sob encomenda para familiares e pessoas próximas à família, e não fazia pelo dinheiro, mas sim porque gostava mesmo.

“A gente tem um livro aqui em casa com a receita original, minha bisavó fazia a torta para a família. A torta Búlgara originalmente se chamava Torta de Búlgaro. Agora, o porquê deste nome, nem minha mãe sabe dizer. Eu acho que naquela época, já existia a torta holandesa, a torta alemã, enfim. E aí ela deve ter colocado o nome por isso”, conta Guilherme.

Dois fatos dão uma pista de quando a receita surgiu: uma é que sua bisavó, avó de sua mãe, já fazia essa receita há 65 anos, quando sua mãe tinha por volta de 5 anos de idade. Outra informação que faz parte das lembranças de família é que Marília, avó de Guilherme, lembra de comer a torta ( de búlgaro na época) desde que entrou para a família ao casar com o filho de Dona Maria da Pureza, ou seja, desde 1943.

“Ela (a torta) sempre foi um sucesso em nossa família, passando de geração em geração, e é até hoje”, diz Guilherme.

Ele explica que, depois de anos, a família abriu um restaurante e a receita acabou sendo passada para o cardápio. A torta começou a ficar famosa, vários outros restaurantes começaram a querer e a fazer suas próprias versões e provavelmente assim a história começou.

“Em 1987, meu tio Sérgio Camélier abriu o restaurante Double Gulla, no Itaigara, e depois o Lá Gulla, no Ondina Apart Hotel. Dona Maria, cozinheira que trabalhou anos na família e diretamente com minha bisa, levou essa e outras receitas de doces pro restaurante, daí disseminou a receita”, lembra.

Segundo Guilherme, a receita de hoje tem algumas modificações. Uma coisa muito importante é que a Búlgara original leva, ao invés do creme de leite, uma calda de baunilha que a torna mil vezes melhor.

“A maioria dos lugares não faz a receita original, que termina saindo muito cara, então a Búlgara verdadeira continua sendo uma tradição – e quase um segredo de família.”, afirma ele.

Bateu curiosidade e quer experimentar? Algumas das mais gostosas são servidas no restaurante Di Liana, Doceria Doces Sonhos, Viva Gula, Tortarelli, Ganache Doçaria e na Confeitaria Priscilla Diniz.



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