Websérie Cada olhar, uma Salvador: Amanda Tropicana e Fábio Marconi

Publicado em 26.08.2026 às 17h 47 - atualizado em 26.08.2026 às 17h 47

História e cultura

Salvador não cabe em um único retrato. A cidade se revela, com o mar, as ladeiras, as manifestações culturais e as histórias de quem vive seus territórios, de diferentes maneiras, dependendo de quem olha.

É a partir dessa ideia que o Visit Salvador da Bahia, canal oficial de turismo e cultura da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), apresenta a websérie “Cada olhar, uma Salvador”, campanha que celebra a pluralidade de perspectivas sobre a capital baiana.

O terceiro episódio apresenta os olhares de Amanda Tropicana e Fábio Marconi sobre a cidade. Amanda fotografa as águas e a religiosidade, enquanto Fábio Marconi se dedica à preservação da sua história.

Salvador por AMANDA TROPICANA

Amanda Tropicana é carioca, filha de pais soteropolitanos, mas não hesita em se considerar filha de Salvador também. Veio ser batizada na cidade ainda bebê, com três meses de idade, um gesto que já demarcava, segundo ela, seu território.

A relação da fotógrafa com Salvador passa, sobretudo, por uma cor específica, o azul, presente sobretudo nas águas e no cotidiano que observa. Para Amanda, esse tom carrega uma qualidade única, quase inexplicável.

“Já foi comprovado cientificamente que o azul de Salvador é único. Salvador tem uma coisa assim que ela não precisa dizer que é Salvador para dizer que está sendo Salvador, ela simplesmente é”, destaca a fotógrafa.

Amanda se define como filha das águas, e dedica seu trabalho a retratar a cultura afro-brasileira, com ênfase nas festas populares e manifestações religiosas que movimentam a Bahia. Para a websérie, escolheu fotografar a região do Rio Vermelho, onde fica a Casa de Iemanjá.

Iemanjá como o norte

A religiosidade está em tudo para Amanda, e essa presença remonta à infância, quando um quadro de Iemanjá na parede despertava sua curiosidade e a fazia se perguntar quem era aquela entidade. Foi esse fascínio que, anos depois, a levou a fotografar a celebração, um dos trabalhos mais significativos de sua trajetória.

“O sagrado pra mim tá em tudo, porque para mim viver é sagrado. Me vem uma questão de um olhar afetuoso, de um olhar respeitoso, de um olhar que tá entendendo aquela lágrima, que entende aquele arrepio”, conta a fotógrafa.

A emoção não fica de fora do processo. Amanda costuma se emocionar junto com quem fotografa, e descreve a si mesma como alguém que deságua, transborda, num movimento que parece natural para quem se entende filha das águas. Dessa forma, a festa de Iemanjá funciona quase como uma bússola pessoal.

“A festa de Iemanjá pra mim, eu digo que é um pouco do meu norte. Fotografar essa festa também me traz essa sensação de pertencimento”, revela.

Ensaio de Amanda Tropicana no Rio Vermelho.
Foto: Amanda Tropicana

Fotografar é falar

Ainda na escola, em 2005, Amanda tirou uma foto contra a luz na Ladeira da Barra, durante o pôr do sol. Foi esse momento, quase acidental, que revelou o que ela realmente queria fazer da vida.

“Foi numa hora no contraluz, no pôr do sol, tinha um rapaz correndo e eu simplesmente tirei a câmera da bolsa, comecei a fotografar. A partir dali que eu entendi que o meu negócio era fotografar o cotidiano, o mundo ao meu redor”, explica.

Mesmo indecisa na véspera do vestibular, o coração já apontava para outro caminho. Foi nas ruas, na pulsação constante que via ao seu redor, que Amanda encontrou o recorte que viria a definir sua carreira, a cultura afro-brasileira e todos os seus desdobramentos na Bahia.

Assim, fotografar, para ela, também é uma forma de comunicação. “Fotografar é uma forma de falar para mim. A fotografia me traz essa viagem registrada”, conta, explicando que a câmera funciona quase como uma compensação para uma timidez que reconhece em si mesma.

E tal forma de falar exige proximidade. Amanda se deixa ser tocada pela cena, sem manter distância do que registra, com um exercício que também orienta o cuidado que tem ao escolher quem fotografar.

“O jeito que eu vejo o outro às vezes é como eu queria ser vista”, diz a fotógrafa.

Salvador por FÁBIO MARCONI

Fábio Marconi é fotógrafo e diretor de fotografia. Na websérie, seu olhar se volta para o Centro Histórico de Salvador, com um registro da história que acontece e se reinventa todos os dias no patrimônio da cidade.

O sentido de preservação da memória através da fotografia é resultado da noção do fotógrafo de que uma foto, para além da imagem, é capaz de guardar a história. “A fotografia para mim é, primeiro, um grande registro histórico, que eu acho que é inigualável. Hoje a gente no digital, eu sempre penso nelas como um grande documento”, afirma Marconi.

Essa percepção não veio de imediato. Foi olhando as fotos que fez há 25 anos que Fábio Marconi entendeu o peso de uma imagem que resiste ao tempo.

“Talvez eu não pensasse isso quando eu comecei a fotografar, mas hoje olhando fotos minhas de 25 anos atrás, eu entendo o poder dessa história, eu revivo histórias através dessas imagens”, conta o fotógrafo.

Com um olhar que define como documental artístico, Marconi se dedica a fotografar Salvador como quem documenta para preservar e contar uma história, uma relação que nasce do próprio lugar onde vive.

Salvador como ponto de partida

Marconi sempre cultivou um interesse pelo passado, e Salvador, para ele, é história viva. “Salvador é história. Nossa primeira capital. Foi aqui que tudo começou mesmo para valer. A gente está num local onde ela realmente aconteceu e continua acontecendo”, expressa o fotógrafo.

Foi por isso que escolheu fotografar o Centro Histórico para o ensaio da websérie. Para ele, essa percepção exige disposição de quem observa, coração aberto para não achar banal uma praça ou um local que carrega, às vezes, trezentos anos de história por trás daquilo que parece simples passagem.

Dessa forma, Marconi enxerga seu próprio trabalho como parte de uma corrente maior, que conecta passado e futuro através da imagem, imaginando que seus registros de hoje possam, um dia, se juntar às imagens de época que ajudam a formar o contexto de uma cidade inteira.

“Eu vejo imagens de época e quem sabe daqui há muito tempo essas minhas imagens não vão se juntar àquelas imagens de época, em formar um contexto da nossa história”, reflete.

O legado que fica

Para Fábio Marconi, o trabalho de registrar Salvador nunca está terminado. “Salvador ainda merece mais registro. Ela tá crescendo, tá mudando”, diz.

A consciência sobre o tempo também aparece em casa. Marconi guarda os álbuns de fotografias antigas em preto e branco que pertenciam aos avós, e entende esse gesto simples como parte do mesmo cuidado que aplica ao próprio trabalho, o de preservar o que, com o tempo, se torna história.

É por isso que imagina suas fotos daqui a muitos anos sendo vistas como ele vê hoje os registros antigos, um elo entre gerações que se repete através da fotografia.

Para descobrir Salvador, é preciso olhar

Os trabalhos de Amanda Tropicana e Fábio Marconi mostram que, para descobrir Salvador de verdade, é preciso olhar com atenção.

Olhar o azul do mar e reconhecer nele mais do que paisagem, uma presença espiritual que atravessa gerações. Acompanhar a festa de Iemanjá e entender o respeito e a emoção que ela exige de quem a fotografa. Caminhar pelo Centro Histórico e enxergar, em cada praça e ladeira, camadas de tempo que continuam se formando.

É essa Salvador que Cada Olhar, uma Salvador convida a conhecer. Uma cidade de paisagens marcantes, mas também de histórias. De patrimônio, mas também de cotidiano. De mar, mas também de gente. Uma cidade que preserva sua memória enquanto continua produzindo novas formas de arte, cultura e criatividade.

Confira o episódio completo:

Por Giovanna Araújo