O que saber sobre a Lavagem do Bonfim
Publicado em 11.01.2019 às 18h 22 - atualizado em 13.01.2026 às 12h 00
O sagrado e o profano, sincretismo religioso, corrida sagrada, festas e passeio de barco
Comemorado na segunda quinta-feira do ano, a tradicional lavagem das escadarias do Bonfim é considerada a segunda maior manifestação popular da Bahia, perdendo apenas para o Carnaval. Em 2026 cai em 15 de janeiro, milhares de fiéis se reúnem na Cidade Baixa, em Salvador, para participar de missas e de uma das maiores caminhadas religiosas do estado, que ocorre entre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, e a Colina Sagrada, no Bonfim.
Para você que nunca foi, este é um “roteiro convite”, onde juntamos várias dicas para sua Lavagem do Bonfim ser uma das experiências inesquecíveis da sua vida. As festas populares são parte da essência da Bahia, representam a entrega e a dedicação a um bem maior, uma união de sagrado e profano que só se vê por aqui. Sincretismo religioso, corrida sagrada e passeio de barco, tudo em uma só celebração.
Nos últimos anos, toda a área da Colina Sagrada passou por uma grande restauração. O pátio da colina também foi totalmente requalificado, garantindo uma festa ainda mais bonita.
Fé e sincretismo
O festejo começa em frente à Igreja da Conceição da Praia, onde acontece um Culto Ecumênico. É bom chegar cedo, a missa começa por voltas das 7h. Os cortejos vão saindo um a um em direção à Igreja do Bonfim. Nosso Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá. É bem bonito ver todos os tipos de devotos caminhando juntos.
7h – Saída da 16ª Caminhada “Lavagem de Corpo e Alma”, da Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia até a Colina Sagrada. (saiba mais)
Depois, dá-se início a uma caminhada de aproximadamente 8km até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Vários cortejos fazem o trajeto, inclusive o Afoxé Filhos de Gandhy (@gandhyoficial) e o Olodum (@olodum_oficial). Eles não têm um horário certo para sair, então você tem duas opções: uma, é ficar ligado e ir andando com eles desde a Conceição da Praia, a outra, é encontrá-los pelo caminho. (a concentração é divulga nas redes de cada um)
O cortejo das baianas sai por volta das 9h30, logo depois da missa ecumênica, muitas vão antes. A festa, que tem mais de dois séculos, mobiliza milhares de fiéis, simpatizantes e turistas.
Após a chegada da Caminhada na Colina Sagrada, Padre Edson Menezes da Silva, reitor da Basílica Santuário, transmitirá da janela central da Igreja uma mensagem e concederá a todos uma bênção, apresentando a imagem do Senhor do Bonfim. Após o momento, é realizado o ritual da lavagem das escadarias.
Depois da missa, é hora do feijão, prato principal e tradicional da festa. Na verdade, você vai encontrar boas opções ao longo de todo o caminho, mas, se a fome bater na região do Bonfim, nossa dica é seguir para a Ladeira do Porto da Lenha ou para um dos restaurantes da orla, no Novo Porto da Lenha, recentemente requalificado.
Confira todos os detalhes, ponto a ponto…
Corrida Sagrada
A Corrida Sagrada é realizada há mais de 30 anos, organizada pela Federação Baiana de Atletismo (FBA) e abre o calendário de corridas de rua da cidade de Salvador. A Largada é em Frente à Igreja de Nossa Senhora Conceição da Praia, às 7h, antes de o cortejo das baianas sair em procissão. Tem que se inscrever antes, mas muitos corredores vão na “pipoca” mesmo, correndo por conta própria. A Corrida Sagrada, ou Corrida do Bonfim, como é comumente chamada, é uma das corridas de rua mais famosas, animadas e tradicionais de Salvador.
O Trajeto – Quem tem fé, vai a pé.
O caminho é um verdadeiro passeio turístico, começando pela própria Igreja da Conceição da Praia, construída no século XVII por determinação de Tomé de Souza. Mãe de Jesus, a Imaculada Nossa Senhora — na Bahia, onde é padroeira — recebe o título de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Este é o único lugar no mundo em que a santa é conhecida por esse nome.
Logo passam por dois cartões postais, à direita o Elevador Lacerda (o elevador liga a Cidade Baixa à Cidade Alta) que carrega este nome em homenagem ao engenheiro que o construiu: Augusto Frederico de Lacerda, no século XIX. Do lado esquerdo está o famoso Mercado Modelo com suas quase 300 lojas que vendem artesanato e lembranças locais. Então a caminhada segue por toda a Av. Miguel Calmon.
Logo depois, na Av. Jequitaia, tem o Mercado do Ouro, construído no fim do século XIX, onde fica um dos melhores restaurantes para comer filés em Salvador: o Filé do Juarez. Ainda nesta avenida, tem o Museu du Ritmo, o Trapiche Barnabé, além do plano inclinado que liga a Cidade Baixa ao Santo Antônio Além do Carmo.
Já no bairro da Calçada, região da Feira de São Joaquim (uma das feiras populares mais icônicas da cidade), você vai passar pelo Mercado do Peixe e a Igreja dos Órfãos de São Joaquim.
Mais à frente, no Largo da Calçada, está a estação de trem que liga a Cidade Baixa ao Subúrbio Ferroviário de Salvador e, alguns metros depois, no Largo de Roma, estão as Obras Sociais de Irmã Dulce. Agora você já está perto, falta apenas uma reta para a Colina Sagrada.
Durante a caminhada, vale também prestar atenção ao Caminho da Fé , que em 2026 foi totalmente revitalizado. O trajeto de 1,1 quilômetro, que conecta o Santuário de Santa Dulce dos Pobres à Basílica do Senhor do Bonfim, na Avenida Dendezeiros, conta com 14 estações e 28 obras de arte que retratam a história de Santa Dulce dos Pobres e do Senhor do Bonfim, criadas pelo artista Juarez Paraíso.
Sagrado e Profano
Durante todo o percurso, você encontra barraquinhas de bebida e comida, feijoada nas casas e no comércio, música para todos os gostos e um constante vai e vem de gente. Diversos grupos folclóricos acompanham a caminhada, além dos tradicionais carrinhos de café, que disputam entre si quem está mais criativo e melhor paramentado, com caixas de som animando o trajeto.
A música, na verdade, está presente em cada canto do percurso: muitos cortejos saem com seus próprios microtrios, além de grupos de samba que tocam diretamente no chão. Muitas dessas pessoas participam para pagar promessas, mas, para tornar o momento mais leve e descontraído, transformam o agradecimento em festa.
Na agenda do Visit Salvador da Bahia tem uma lista especial com todos os eventos que acontecem nesta data. Confira os detalhes no Especial Lavagem do Bonfim 2026.
No final do dia, é comum que grupos de amigos façam o retorno em clima de festa, a bordo de barcos, escunas e lanchas pela Baía de Todos-os-Santos, saindo da Cidade Baixa em direção ao Comércio. Mas é preciso se organizar com antecedência: reúna os amigos e agende a volta antes mesmo de sair.
Caso essa não seja a sua opção, a dica é retornar a pé até o Largo da Calçada e, de lá, pegar um taxi ou mototáxi autorizado, que pode levá-lo pelo menos até o Elevador Lacerda. Caso contrário, o trajeto de volta precisará ser feito todo a pé.
Colina Sagrada: santuário de emoções
Chegar aos pés da Colina Sagrada é uma emoção que não se descreve, só se sente! Já na subida, pessoas de Santo dão banho de ervas e tudo fica com cheiro de arruda e alfazema. Ver tantas pessoas em um mesmo propósito mexe com a alma, te deixando com uma alegria e uma esperança de encher os olhos de lágrimas. Também é comum ver pessoas de joelhos, pagando suas penitências em agradecimento. É uma energia diferente, forte e intensa.
É nesta festa que se explica o gradil ser tão cheio de fitas coloridas amarradas. Uma grande quantidade de pessoas se revezam para amarrarem suas fitinhas do Bonfim e fazerem seus pedidos. Não pode faltar a sua. Vá se colocando devagar bem próximo à grade, tente se ajoelhar lado a lado de tantos fieis. Enquanto você amarra sua fita, olhe por entre a grade e verá que lá dentro muitas baianas já começam a lavar a parte da frente da Igreja. Mais tarde, depois da missa de frente para o pátio lotado, as baianas começam a Lavagem com suas vassouras, flores e potes de água na cabeça.
E é nesse cenário de fé e purificação que a Lavagem do Bonfim se completa, transformando a Colina Sagrada em um santuário de emoções. A Lavagem do Bonfim não é só uma festa, é um mergulho na fé e na cultura. Você não apenas testemunha um ritual, você se torna parte dele.
Por Fernanda de Carvalho Slama
Pesquisadora e Jornalista
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