Carnaval Bloco Alvorada. Salvador. Bahia. Foto divulgação.
Carnaval Bloco Alvorada. Salvador. Bahia. Foto divulgação.

Bloco Alvorada - a tradição do samba baiano

Publicado em 09.01.2026 às 10h 15 - atualizado em 06.02.2026 às 11h 24

Carnaval

Resistência cultural, identidade popular e ações comunitárias

Fundado em 1º de janeiro de 1975 por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira — entre eles Vadinho França, também fundador da Unesamba, que reúne os nove blocos de samba da folia baiana —, o Alvorada nasceu no Gravatá e foi responsável por inaugurar a Sexta-feira de Carnaval, abrindo oficialmente o primeiro dia da festa na capital baiana. Seu nome simboliza justamente esse papel: o de anunciar o nascer do Carnaval, o despertar da alegria e da tradição do samba.

Desde a sua criação, o Alvorada mantém forte relação com o público, seja nas questões religiosas, de gênero e música.

“A quinta do samba existe, mas quem legitimou a nossa sexta foi o povo. Nós conseguimos isso com perseverança e resistência. E isso fez de nós um bloco respeitado”, acrescentou o presidente.

Os foliões saem no estilo sambista, com calça branca, camisa com o tema do ano, chapéu e um lenço, que já se tornou marca registrada do Alvorada. Além de ser o primeiro, é o único que prioriza o samba baiano e desenvolve tema todos os anos.

Blocos de Samba. Carnaval de Salvador. Bahia. Foto Divulgação.

Ao longo de cinco décadas, o Alvorada manteve viva sua essência: repertório próprio, ala de canto com artistas da terra, ala das baianas e de passistas, e o inconfundível galo de três metros, que abre o cortejo da agremiação.

Mas o bloco é mais do que um símbolo da avenida. Durante todo o ano, realiza ações sociais e culturais com a comunidade, como a Feira de Empreendedores Negros, o tradicional caruru que marca o início dos ensaios e a Lavagem da Fonte de Nanã, rituais que reforçam a ligação espiritual com o Terreiro Bate Folha e com a religiosidade afro-baiana.

Carnaval de 2026

Bloco Alvorada celebra centenário de Mãe Olga do Bate Folha no Carnaval de 2026

Tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé” reverencia a sacerdotisa angoleira e reafirma o samba como expressão de fé, cultura e resistência
O Bloco Alvorada, primeiro bloco de samba do Carnaval de Salvador, realiza desfile no Carnaval 2026 com homenagem que atravessa gerações e reafirma a força do samba como símbolo da cultura negra.

A agremiação irá levar para a Avenida o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, em tributo à sacerdotisa Dona Olga Conceição Cruz, conhecida como Nengua Guanguacese, uma das mais importantes líderes espirituais da nação Angola e referência do Terreiro Bate Folha — o Manso Banduquenqué, reconhecido como o primeiro terreiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Em 2026, o desfile da Sexta-feira de Carnaval contará novamente com grandes nomes do samba baiano. A ala de canto reunirá Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França, Tiago Dantas (Representa) e Rogério Bambeia, com participações especiais de Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes.

Mais do que um desfile, o Alvorada propõe um rito de reverência. A homenagem celebra o centenário da sacerdotisa nascida em 17 de março de 1925. Iniciada, aos 24 anos, por Pai Bandanguame (Antônio José da Silva), ela recebeu sua dijina do nkisi Kukueto, divindade das águas profundas, da serenidade e da criação. Desde então, dedicou 74 anos de sacerdócio ao culto e à preservação do candomblé Angola.

A homenagem proposta pelo Alvorada parte de três forças que traduzem a caminhada de Mãe Olga: o mar, a folha e a fé. O mar, domínio de Kukueto, representa o movimento da vida e a criação. A folha simboliza o poder de cura e a energia vital que alimenta o axé. Já a fé, expressa no branco que cobre a avenida, é o fio condutor que liga o terreiro ao samba, o sagrado ao popular, o tambor ao coração.

Ao longo da vida, Nengua Guanguacese foi reconhecida pela sabedoria, generosidade e firmeza. Guiou centenas de filhos e filhas de santo, acolheu famílias inteiras e consolidou o Bate Folha como um dos mais importantes espaços de resistência das religiões de matriz africana. Com sua partida, em 25 de abril de 2023, aos 98 anos, encantou-se, mas deixou um legado de fé, amor e partilha.

Na visão do bloco, celebrar Nengua Guanguacese é também reafirmar o papel das mulheres negras que sustentam os terreiros e moldam a identidade espiritual da Bahia. “É o reconhecimento da força feminina que, com paciência e coragem, transforma o cuidado em ato político e o axé em lição de vida”, afirma o presidente do Alvorada, Vadinho França.

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