Palhaços do Rio Vermelho. Salvador. Bahia. Foto de Fernando Naiberg.
Palhaços do Rio Vermelho. Salvador. Bahia. Foto de Fernando Naiberg.

Palhaços do Rio Vermelho: a manifestação pré-carnavalesca que é Patrimônio Cultural

Publicado em 20.01.2026 às 20h 20 - atualizado em 27.01.2026 às 11h 53

Carnaval
História e cultura

Em 2026 a festa celebra 110 anos de Samba e resgata a essência do Carnaval de Salvador

O Desfile dos Palhaços do Rio Vermelho é uma manifestação cultural vibrante, um ato de resistência e um marco no calendário festivo de Salvador. Em 2026, o desfile ganha um brilho ainda mais especial ao celebrar seu novo status de Patrimônio Cultural da cidade e prestar uma justa homenagem aos 110 anos do samba.

Com mais de uma década de história, o Desfile dos Palhaços do Rio Vermelho reafirma seu lugar como uma das mais autênticas festas de rua de Salvador, celebrando a cultura popular, a arte e a ocupação criativa do espaço público no tradicional bairro do Rio Vermelho — reduto histórico da boemia e da produção cultural da cidade.

A história de uma folia democrática e contagiante

Palhaços do Rio Vermelho. Foto: Fernando Naiberg

A história dos Palhaços do Rio Vermelho é uma narrativa de resgate cultural. O movimento surgiu em 1986, quando o artista plástico Ruy Santana e sua irmã, em uma brincadeira espontânea com maquiagem de festa, foram aclamados como “palhaços” pelas crianças da Rua Ilhéus. Ao perceber que a fantasia e o caráter lúdico do carnaval estavam sendo substituídos por abadás e mortalhas, Santana idealizou o movimento como forma de resgatar o lado poético da festa.

O que começou como uma brincadeira entre amigos e vizinhos cresceu exponencialmente e, em 2009, firmou-se como uma expressão de resistência cultural contra a “industrialização” do carnaval. A filosofia do movimento é a da liberdade carnavalesca e democrática, em que cada folião cria sua própria fantasia, sem cordas e sem fins lucrativos.

O desfile transforma-se em um verdadeiro mosaico cultural, reunindo diversas manifestações tradicionais, como coletivos de capoeira, o Nego Fugido, o reisado e grupos de samba de roda de diferentes municípios.

Mais do que um desfile, o projeto representa uma importante frente de atuação na proteção, valorização e revitalização das expressões culturais que formam a identidade da Bahia. Ao envolver diretamente a comunidade local e artistas da capital e do interior, os Palhaços do Rio Vermelho contribuem para a salvaguarda dos modos de criar, fazer e viver que sustentam o pluralismo da cultura brasileira.

A relevância histórica do movimento foi celebrada no documentário “Palhaços do Rio Vermelho – o curta” (2021), dirigido por Lilih Curi, que mergulha na história, nos bastidores e na alegria que centenas de palhaços provocam nos frequentadores do festejo.

Patrimônio Cultural

O desfile acontece no dia 31 de janeiro, data que passa a integrar oficialmente o Calendário de Eventos do Município de Salvador como o Dia Municipal do Desfile dos Palhaços do Rio Vermelho, conforme a Lei nº 9.898/2025, sancionada em 13 de novembro de 2025. A iniciativa é fruto do Projeto de Lei nº 319/2025, de autoria do vereador Silvio Humberto, presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Salvador.

A preservação da manifestação contribui para a geração de emprego, renda e turismo, além de resgatar a alegria genuína e o convívio social característicos do carnaval. Com o apoio institucional garantido, a expectativa para 2026 é de uma festa ainda maior, mais estruturada e inclusiva. .

A edição de 2026: data, trajeto e homenagem

O cortejo irreverente e colorido está marcado para o dia 31 de janeiro de 2026, um sábado, com início previsto para as 17h. O palco dessa festa é o boêmio bairro do Rio Vermelho, conhecido por sua atmosfera artística e efervescente. (Mais informações: @palhacosdoriovermelho)

O ponto alto da celebração será a homenagem aos 110 anos do samba, um dos pilares da cultura brasileira, e ao cantor baiano Riachão, um dos sambistas mais reconhecidos do país. A homenagem ocorrerá às 18h, na Quadra Esportiva da Rua da Paciência. A abertura do desfile contará com um Ato Simbólico na Ala das Artes, dedicado à homenagem, in memoriam, a Clementino Rodrigues, o eterno Riachão, um dos maiores sambistas da Bahia e do Brasil, referência incontornável da música popular brasileira e da identidade cultural baiana.

O trajeto tradicional será mantido, com a concentração na Quadra Esportiva da Rua da Paciência e o encerramento na Rua Fonte do Boii, ocupando parte da orla do bairro em uma celebração multilinguagem, popular e vibrante. O desfile é caracterizado pela participação de alas de grupos culturais, bandas de fanfarra e percussão, além das Estações Musicais Fixas que ocupam pontos estratégicos do percurso, garantindo que a energia contagiante se espalhe por todo o bairro.

Para Lúcia Menezes, cofundadora dos Palhaços do Rio Vermelho, 2026 será o ano de celebração.

“Comemorados os 110 anos de Samba e teremos a honra de homenagear nosso saudoso Riachão. Para mim expressa um sentimento pessoal que me remete ao tempo que tive a oportunidade de conviver com ele quando fomos colegas de trabalho no Desenbanco. Riacho, como chamado carinhosamente, era uma figura carismática, alegre, carinhosa e de bem com a vida. Estou muito feliz e emocionada em poder realizar essa homenagem em nome dos Palhaços do Rio Vermelho”, explica.

Ao fortalecer o sentimento de pertencimento e a conexão dos soteropolitanos com o bairro do Rio Vermelho, o desfile não apenas preserva tradições populares, mas também revitaliza a identidade cultural do território, assegurando que essas manifestações sigam vivas, inclusivas e inspiradoras para as futuras gerações.