Lançamento do longa baiano 'O Primeiro Beijo'
Publicado em 13.11.2025 às 10h 57 - atualizado em 22.01.2026 às 15h 43
No Dia da Consciência Negra, Salvador recebe o lançamento do longa O Primeiro Beijo, documentário dirigido pela cineasta baiana Urânia Munzanzu (@munzanzuurania). O filme chega às telas como um manifesto político pela vida de mulheres negras que tiveram suas vidas e famílias atravessadas pelo crack, revelando como a droga – considerada pela diretora como uma “tecnologia de escravização moderna” – opera como mecanismo de extermínio, apagamento e feminicídio. A sessão de estreia acontece no dia 20 de novembro, no circuito da Saladearte, em Salvador.
Fruto de uma investigação que se estendeu por 14 anos, o documentário é produzido pela Acarajé Filmes, em parceria com a Modupé Produtora Audiovisual e Mulungu Realizações Culturais e tem distribuição da Olhar Filmes. “O primeiro beijo” é como, em Salvador, as mulheres nomeiam a primeira experiência com a droga. “Essa frase cheia de múltiplos sentidos, e de certa maneira sutilmente irônica, guarda a dor de mulheres para as quais as experiências de amor e de afeto estão necessariamente atravessadas pelas mais variadas formas de violência”, afirma Urânia.
O filme nasceu de um encontro em 2006. Na época, Urânia nem se imaginava cineasta, então jornalista e moradora do centro de Salvador, foi abordada por Rilda, mulher negra em situação de dependência química severa, que insistiu para que sua trajetória fosse registrada. “Eu vou morrer, mas antes disso quero falar dessa droga”. A partir desse chamado urgente, o documentário se constrói como testemunho, escuta e enfrentamento.
“A linha que me separava de Rilda era muito tênue. Era só o ‘primeiro beijo’ que ela deu e eu não dei. Sendo uma mulher negra e de santo, entendi que tinha uma espiritualidade gritando, e enquanto sujeito político, eu tenho um compromisso com a minha comunidade”, afirma a cineasta que, desde então, tem se voltado à construção narrativa de produtos audiovisuais com foco em em raça, gênero e política. Entre eles, o curta “Na Volta Eu Te Encontro” (2025) que recebeu 7 premiações em festivais pelo Brasil.
O filme conta com a participação especial da voz de Elza Soares, narrando o poema Canarinhas da Vila, de Landê Onawale; trilha sonora original de Jarbas Bittencourt e uma equipe majoritariamente negra que reforça a narrativa estética e política da obra. Com produções associadas de nomes como Lázaro Ramos e Thiago Gomes, o filme amplia o debate sobre como o Brasil constrói, alimenta e naturaliza suas “cracolândias”.
A coprodutora do filme, Susan Kalik, reforça que a mensagem central do documentário é compreender o crack dentro da estrutura que o produz. “Temos no Brasil um processo civilizatório construído com base necropolítica e o crack faz parte disto. Este filme lança olhar sobre mulheres que tiveram seus caminhos atravessados por esta droga maldita, não só como usuárias, mas como mães, filhas, esposas que resistem, persistem, sobrevivem. É um filme sobre dororidade, mulheridades e “sobre vivência”.
Entre entrevistas e relatos marcados por coragem, dor e humanidade, o filme coloca em primeiro plano mulheres dependentes químicas e seus familiares, expõe a ausência de políticas públicas, o impacto da violência racial e de gênero e as contradições de um Estado que normaliza o abandono. Ao mesmo tempo, evidencia a importância de redes de apoio e estratégias de resistência construídas por essas mulheres.
Serviço
Data: 20 de novembro
Local: Saladearte – Salvador
Direção: Urânia Munzanzu
Duração: 110 min | Classificação: 16 anos
Acontecendo perto de você
Confira outros eventos que estão acontecendo próximo a sua localização: