Espaços Culturais de Salvador. MUNCAB. Foto acervo Visit Salvador da Bahia.
Espaços Culturais de Salvador. MUNCAB. Foto acervo Visit Salvador da Bahia.

Salvador recebe mais de 600 obras Afro-Brasileiras na maior repatriação da história

Publicado em 06.03.2026 às 12h 51 - atualizado em 13.03.2026 às 15h 28

História e cultura

Em um marco histórico para a cultura brasileira, a cidade de Salvador se tornou o epicentro da maior repatriação de obras de arte afro-brasileiras já registrada. Um conjunto de 666 obras, que compunham a coleção do o Instituto Con/Vida, em Detroit, retornou ao Brasil após mais de três décadas nos Estados Unidos, enriquecendo o acervo do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) e reforçando a memória cultural negra do país.

A partir desse conjunto, foi criada a exposição “Inclassificáveis”, que reúne cerca de 100 peças do acervo Con/Vida, no Muncab. A mostra será aberta ao público no dia 13 de março, às 19h, marcando a primeira exibição pública após o maior retornar à pátria de obras de arte já realizada no Brasil.

A história do retorno

A coleção Con/Vida, composta por 666 obras de 135 artistas afro-brasileiros, foi meticulosamente formada ao longo de uma década pelas educadoras norte-americanas Barbara Cervenka e a historiadora Marion Jackson. O interesse pessoal das colecionadoras pela relação entre cultura, arte e história, e a forte influência de países africanos no Brasil, as motivaram a iniciar a coleção em suas frequentes viagens ao país, a partir de 1992.

Por mais de 30 anos, as americanas viajaram pelo Nordeste pesquisando e adquirindo trabalhos de artistas locais. E depois de três décadas desejavam doar toda a coleção, que reunia pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, arte sacra e diversas tipologias produzidas entre as décadas de 1960 e 2000 por artistas negros. Entre eles, J. Cunha, Babalu (Sinval Nonato Cunha), Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Emma Valle abrangendo diferentes gerações, territórios e linguagens artísticas.

Em entrevista para o portal Arte Brasileiros, Marion Jackson enfatizou que a decisão de doar a coleção ao MUNCAB não se enquadra no discurso internacional de decolonização e repatriação por reivindicações conflitantes de propriedade, uma vez que todas as obras foram adquiridas legalmente e individualmente dos artistas. Para as colecionadoras, tratava-se de uma missão de devolver o acervo à sua origem para que pudesse ser celebrado e utilizado como um passo lógico na gestão da coleção, aumentando a compreensão e apreciação por essa arte singular e, muitas vezes, negligenciada no passado.

Sobre a exposição “Inclassificáveis” no MUNCAB

Para celebrar a chegada deste valioso acervo, o MUNCAB organizou a exposição “Inclassificáveis”, com abertura em 13 de março de 2026. A mostra apresenta o primeiro recorte do conjunto Con/Vida, com trabalhos de artistas baianos, cearenses e pernambucanos que estiveram por décadas nos Estados Unidos.

Com curadoria de Jamile Coelho e Jil Soares, a exposição propõe uma leitura que desafia as categorias historicamente atribuídas à produção artística negra, buscando ampliar o reconhecimento e o acesso a essas obras.

A exposição não apenas fortalece o acervo permanente do MUNCAB, mas também possibilita novas perspectivas sobre autoria, circulação e memória na arte brasileira, reafirmando a cultura como instrumento de reparação, pertencimento e construção de futuro.

Entre os artistas cujas obras compõem a coleção e a exposição, destacam-se nomes como J. Cunha, Babalu (Sinval Nonato Cunha), Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia, Manoel Bonfim, Alberto Pitta, Alfredo Cruz, Calixto Sales, Celestino (Louco Filho), Didito, Dory, Ednéia, Eduardo Santos Silva, Emma Valle, Frank Bahia, Gil Abelha, Gilvan Lima, Gisele, Goya Lopes, Ivanildo Lopes, Ivaldo Lisboa, Ivonete Dias, John Kinnidy, Jorge Santos, Jó Silara, Louco, Lydia Hora, Mauro Di Verde, Mestre Mimu, Nivaldina, Palito, Pedro Santos, Raimundo França, Raimundo Nonato, Renato Lima, Roque Escultor, Telma Sá, Thelmo Sá, Totonho, Tupinancy, Ubiraci e Tibiriçá.

As tipologias das obras são diversas, incluindo pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, arte sacra, objetos rituais e estampas, produzidas entre as décadas de 1960 e 2000.

A longo do ano, o museu desenvolverá um programa de exposição que se desdobra em outras mostras de longa duração, catálogos e iniciativas educativas vinculadas à coleção.

Um processo complexo e colaborativo

O retorno das obras a Salvador, ocorrido em 12 de janeiro de 2026, foi resultado de um complexo processo logístico internacional. Este envolveu embalagem especializada, adequação às normas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte técnico, com o apoio fundamental da Alfândega da Receita Federal.

A iniciativa contou com uma ampla articulação interinstitucional, envolvendo o Ministério da Cultura (MinC), que apoiou negociações e a compra de mobiliário; o Ministério da Fazenda, nos aspectos regulatórios e de comércio exterior; a Receita Federal, no desembaraço alfandegário; e o Ministério das Relações Exteriores, que articulou a diplomacia cultural necessária para o retorno das peças.

Além das instituições públicas, o MUNCAB recebeu apoio do Instituto Ibirapitanga, que colaborou no planejamento logístico e na articulação técnico-curatorial, e de parceiros do setor privado como Wilson Sons e Petrobras, que contribuíram em fases específicas das operações de logística integrada e na ampliação do corpo técnico museológico.

Fonte:

Maior repatriação de obras de arte afro-brasileira da história do Brasil ganha exposição em Salvador (O Globo neste link)

Quando a arte afro-brasileira volta em peso para casa (portal Arte Brasileiros neste link)

Ministério da Cultura participa da maior repatriação de obras de arte afro-brasileiras da história do país (portal do Ministério da Cultura (MinC) neste link).

Muncab abre exposição em Salvador com trabalhos que integram maior repatriação de obras de arte já realizada no país. (G1 neste link)